Na América Latina, o fortalecimento das medidas de compliance tornou-se um dos principais instrumentos de governança corporativa. Empresas que desejam entrar em mercados globais precisam não apenas satisfazer as necessidades regulatórias locais, mas também integrar padrões internacionais de integridade.
Daí a necessidade de seus 3 pilares: investigação interna, cultura de denúncia, confidencialidade e cooperação como o meio estratégico da Investigação Interna. As investigações internas não são apenas revisões de queixas ou inspeções, mas sim um papel de governança, protegendo a reputação corporativa, antecipando riscos e garantindo a confiança das partes interessadas.
Os obstáculos são óbvios na América Latina: sistemas legais fragmentados, recursos escassos entre empresas de médio porte e culturas organizacionais que continuam a ser mais resistentes a denunciar aqueles acima deles. No entanto, quando realizadas com neutralidade, honestidade e apoio da alta liderança, a investigação interna pode mudar o que os funcionários acreditam sobre a organização e solidificar a imagem da empresa como uma de integridade.
Nos EUA e na Europa, existem protocolos estabelecidos para garantir independência e rigor nas investigações técnicas. Por exemplo, é comum contratar equipes externas especializadas, o que reduz preconceitos. Este modelo é transferível para a América Latina, particularmente em setores mais sensíveis ao risco reputacional, como energia, infraestrutura e serviços financeiros.
Cultura de Denúncia: O Poder da Transparência
A cultura de denúncia é vital para que irregularidades sejam detectadas antes de se tornarem crises. Mas na América Latina, os obstáculos culturais — medo de retaliação e dificuldade em confiar nos sistemas de denúncia de tais incidentes — ainda estão enraizados. Tais barreiras podem ser superadas com as melhores práticas globais, como:
- Nos Estados Unidos, existem proteções robustas para denunciantes sob legislação, incluindo a Lei Sarbanes-Oxley e a Lei Dodd-Frank (essa última é considerada um marco na proteção e o incentivo aos denunciantes.
- Na Europa, são programas contínuos de treinamento e campanhas de comunicação sobre o aspecto de denúncia e cidadania corporativa.
- Em outros países asiáticos, sistemas de denúncia digital com IA foram implantados por empresas para alcançar anonimato e rastreabilidade.
A América Latina poderia aprender com esses modelos e aplicá-los às suas próprias condições por meio de denúncias multilíngues, estruturas de garantia de anonimato, ações internas que sustentem a integridade e ferramentas de IA/sistemas de monitoramento que já existem.
Confidencialidade: A Base da Credibilidade
A confidencialidade é fundamental para proteger os denunciantes e salvaguardar a integridade da investigação. Não é surpresa que a União Europeia tenha estabelecido limites rigorosos para as leis que ela abrange — como com o GDPR — que agora são padrões aceitos globalmente. A LGPD no Brasil faz o mesmo, mas lacunas continuam em outros países da região. As melhores práticas mundiais sugerem:
- Acesso restrito a dados sensíveis.
- Tecnologia de criptografia de dados usada para proteger dados.
- Medidas claras de segurança da informação e auditoria independente.
Empresas latino-americanas que adotam esses métodos em suas operações estarão mais equipadas para se envolver com funcionários e manter a credibilidade de sua investigação. Colaboração:
Parcerias Internas e Externas
A cooperação fortalece a integridade das investigações e aumenta sua credibilidade no ambiente institucional. Internamente, é necessário integrar jurídico, auditoria, recursos humanos e compliance. Externamente, significa trabalhar com reguladores e parceiros de negócios. Países europeus tradicionalmente fomentaram a cooperação entre empresas e reguladores que podem facilitar processos e minimizar custos. Na América Latina, a atitude é mais defensiva, e há desconfiança no setor público. O uso de práticas de outras nações — desde acordos de leniência até programas de cooperação setorial — pode ser empregado para desenvolver relações mais claras e eficientes.
O Papel das Certificações
Certificações internacionais em compliance e ética corporativa são maneiras poderosas de acelerar a maturidade das empresas latino-americanas.
Programas como o Certified Compliance & Ethics Professional (CCEP), oferecido pela Society of Corporate Compliance and Ethics (SCCE), ou ISO 37001–Sistema de Gestão Antissuborno, oferecem modelos aceitos globalmente que podem ajudar uma empresa a estabelecer um regime de compliance. Os benefícios de tais certificações são muito evidentes:
- Padronização de processos: a formação de procedimentos claramente definidos para conduzir investigações internas e lidar com queixas.
- Legitimidade internacional: provar a investidores e parceiros que as práticas desta empresa são percebidas globalmente.
- Educação relacionada ao trabalho: educar executivos e iniciantes sobre o conhecimento técnico mais recente e relevante.
- Benchmarking — a capacidade de comparar o terreno com as práticas globais para identificar lacunas e espaço para melhorias.
Na América Latina, onde as regulamentações ainda não são totalmente compreendidas e barreiras culturais existem, as certificações podem representar o primeiro passo nesse tipo de transformação. Elas fornecem conhecimento técnico, mas também legitimidade aos profissionais de compliance na defesa da importância da confidencialidade, cooperação e cultura de denúncia a serem promovidas dentro das organizações.
Inteligência Artificial para Suporte Estratégico
Outro capítulo importante é sobre como a crescente adoção da inteligência artificial (IA) pode ajudar a reforçar as práticas de compliance. A IA já fez com que investigações internas mudassem o curso das investigações internas em mercados maduros e está desempenhando um papel cada vez mais importante na América Latina, através de:
- Pesquisa interna: algoritmos de aprendizado de máquina podem analisar um grande número de dados, identificar padrões suspeitos e anormalidades em trocas financeiras e detectar comportamentos incomuns de comunicações internas ou movimentos de dinheiro ou atividades internas. Isso reduz o tempo gasto em investigações e aumenta a precisão.
- Cultura de denúncia: chatbots inteligentes devem ser capazes de obter relatórios de chatbots inteligentes que possam visualizar relatórios em vários idiomas e que relatem em vários idiomas para que seja acessível e anônimo. Sistemas de IA também podem classificar relatórios por criticidade e acelerar a resposta da empresa.
- Sigilo: Esses sistemas fornecem criptografia complexa, controles de acesso adaptativos e proteção proativa contra-ataques de uso indevido de dados.
- Orientado por consenso: as plataformas inteligentes podem criar relatórios padronizados para reguladores, garantir interoperabilidade entre segmentos internos e automatizar benchmarking com referências mundiais.
A adoção de IA em relação a certificações como ISO 37001 ou certificações como o CCEP adiciona credibilidade às organizações, não apenas por meio da certificação, mas ao mostrar a inovação em torno da gestão de riscos. Como parceiro estratégico de IA, líderes seniores devem considerar aprimoradores de eficiência de IA e redutores de preconceitos, enquanto profissionais de compliance iniciantes devem aprender habilidades híbridas em ética, direito e o poder da tecnologia.
Concluímos então, que a integração da investigação interna com cultura de denúncia, confidencialidade, cooperação, certificações internacionais e inteligência artificial é o caminho para as organizações latino-americanas alcançarem padrões globais de integridade. Apenas organizações que transformam esses pilares em práticas concretas e sustentáveis, que podem construir confiança, criar competição e ganhar um bom nome reconhecido internacionalmente, podem determinar o futuro do compliance na região.
Artigo por: Denis P. Bassetto
Membro do Comitê de Ética e Compliance LATAM da LEC
Referências:
– Treviño, L. K., & Nelson, K. A. (2021). Managing Business Ethics: Straight Talk About How to Do It Right. Wiley.
– OECD (2020). OECD Integrity Review: Strengthening Integrity in Latin America. https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2020/09/building-the-evidence-for-oecd-integrity-and-anti-corruption-agenda-the-current-situation-and-avenues-for-future-analysis_2dc02638/80ebe6e6-en.pdf
– Transparency International (2023). Corruption Perceptions Index. https://www.transparency.org/en/cpi/2023
– Kaptein, M. (2011). Understanding unethical behavior by unraveling ethical culture. Human Relations, 64(6), 843–869.
– SCCE (Society of Corporate Compliance and Ethics). Certified Compliance & Ethics Professional (CCEP). https://www.corporatecompliance.org/about-scce
– International Organization for Standardization (ISO). ISO 37001 – Anti-bribery management systems. https://www.iso.org/standard/37001
– Deloitte (2023). Artificial Intelligence Ethics in the Inteligence Lifecycle – A Perspective on Change https://www.deloitte.com/uk/en/services/consulting-risk/blogs/2023/cyber-uk-2023-blog-perspectives-on-change-ai-ethics-in-the-intelligence-lifecycle.html
Imagem: Canva


