O crime organizado já está dentro do sistema financeiro. Essa é a nova realidade com a qual o compliance precisa lidar. O desafio é que com a maior sofisticação dos bandidos, acreditar que os mecanismos de conheça o seu cliente e os controles tradicionais serão capazes de identificar e evitar que recursos sejam lavados nas instituições é, no mínimo, uma ingenuidade
O dinheiro grosso do crime organizado, aquele que realmente faz a diferença, não chega mais sujo nem lavado (literalmente). Tão pouco entra pela porta dos fundos, em malas abarrotadas de notas de papel. Também não tem mais origem “desconhecida”, ficha criminal ou irregularidades que saltam aos olhos ao primeiro ou segundo olhar. Tudo parece estar na mais perfeita ordem.
As organizações criminosas brasileiras, em especial as maiores e mais conhecidas como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV), os maiores bicheiros do Rio e parte das milícias fluminenses, aprenderam a se vestir para o mercado. E o mercado financeiro — justamente o setor mais bem-aparelhado para detectá-lo — viu essa transformação acontecer de perto, em muitas situações, perigosamente de perto. Mas a verdade é que ninguém estava esperando que viesse o que veio à tona a partir da deflagração da Operação Carbono Oculto, no último ano.
Pela primeira vez de maneira tão explícita, a presença do PCC foi mapeada dentro de estruturas financeiras sofisticadas de gestoras de investimento, fundos exclusivos, fintechs e empresas operacionais da Faria Lima, o coração onde pulsa mais forte o chamado “mercado”. Agora, se para o cidadão comum, a notícia foi uma revelação; para quem trabalha com compliance e prevenção à lavagem de dinheiro (PLDFTP) no sistema financeiro, a coisa foi mais a confirmação de algo do que já se suspeitava (e que muitos sabiam) há tempos.
E serviu de alerta de que os modelos tradicionais de controle e governança precisam, urgentemente, evoluir em um ambiente que é sempre difícil, já que assimétrico e onde o crime tem sempre a vantagem de correr por fora ou à frente da lei e dos reguladores.
Por muito tempo, o mercado financeiro e os seus profissionais de compliance tinham um arquétipo relativamente bem definido e fácil de identificar sobre quem poderia ser enquadrado de lidar com dinheiro oriundo de fontes suspeitas. Foi o que manteve, inclusive, milhões de pessoas, incluindo muitos trabalhadores e empreendedores informais de fora dos bancos (e o trabalho informal responde por mais de um terço da população ocupada no Brasil).
O problema desse modelo é que além dele ser hoje, reconhecidamente preconceituoso, ele se tornou ineficaz de várias formas. Além de ainda ter dificuldade em lidar com a informalidade, esses processos não são necessariamente aderentes à nova realidade da riqueza gerada no ambiente das redes sociais e dos mercados digitais. De MC’s do Funk, influenciadores das mais diversas áreas e comentadores da vida alheia, esse novo mercado deu origem a um pequeno exército de pessoas que saíram do nada para ganhar dezenas, centenas de milhares de reais por mês.
Trata-se de um fenômeno novo e ostentado com gosto nas redes: carrões, relógios e joias de luxo, viagens… Muitos personagens dessa nova elite econômica não teriam uma conta facilmente aprovada em bancos que ainda seguem um modelo tradicional de “Conheça o seu cliente” (KYC). “Tanto dinheiro, em tão pouco tempo, sem lastro, de alguém que mora em uma área periférica? Deve ter algo errado” (NE.: sinta-se à vontade o leitor para adicionar componentes raciais e socioeconômicos à frase acima). Ao mesmo tempo, não se pode fazer vista grossa ao fato de que o crime organizado, que se infiltrou no coração do mercado financeiro, sempre se fez presente nas comunidades e não deixaria de usar mais esse caminho para lavar o seu dinheiro de fontes ilícitas como o tráfico de drogas e os jogos ilegais. A recente operação Narcofluxo, que prendeu dois nomes conhecidos do mundo do funk, sob a acusação de movimentarem e lavarem mais de um bilhão de reais de dinheiro do crime, é só um exemplo de quão complexo pode ser o trabalho dos profissionais de compliance daqui para a frente.
Mas, a real ironia nisso tudo é que o dinheiro realmente ilícito, gerado em atividades promovidas por organizações criminosas, esse está cada vez mais branqueado, bem-vestido e localizado. “O crime organizado hoje não é mais ostensivo, é uma coisa mais discreta, formal, que se senta à mesa com você. É por meio de um cara de terno e gravata, que se expressa extremamente bem e tem formação de primeira linha, que o dinheiro ilícito está entrando no mercado”, pontua Roberta Silveira, diretora de Compliance da gestora de recursos V8 Capital.
O crime saiu das margens do mercado financeiro formal, ao qual ele sempre tentou burlar para não ser pego, e se instalou dentro dele, inclusive com suas próprias fintechs, fundos de investimento exclusivos, operações de crédito estruturadas como veículos de lavagem, para não falar nos ativos virtuais, cuja regulação veio no final de 2025. Já há, inclusive, relatórios do FBI sobre o uso intensivo de stablecoins pelo crime organizado e a lavagem via cripto é um dos vetores de maior crescimento entre os grupos criminosos mais estruturados.
As empresas que estão sendo usadas como fachada também não se limitam mais às “portinhas” de aluguel ou terrenos no meio do nada. Elas são operacionais, o que só aumenta a complexidade já que o dinheiro de atividades ilícitas está misturado ao fluxo legítimo de negócios. Em suma, os agentes que servem ao crime organizado encontraram meios de fazer seus negócios operarem dentro de um alto grau de legalidade aparente, o que torna os procedimentos tradicionais de checagem, muito pouco eficazes nesses casos. Como lembra Sandra Guida, fundadora da consultoria Board.Ia e executiva com quase 30 anos de atuação na área de compliance financeiro, os modelos tradicionais de PLDFTP foram desenhados para identificar os padrões mais evidentes. “O risco hoje está bem menos visível e muito mais distribuído. Uma operação pode estar formalmente correta — documentos em ordem, garantias apresentadas — e ainda assim carecer de sentido quando se aprofunda a análise”, alerta Sandra.
A sofisticação chegou ao ponto dessas organizações contarem com especialistas para mapear os próprios sistemas de detecção dos bancos e testar onde estão os limites de tolerância de cada um deles. “O crime organizado tem dinheiro para contratar bons profissionais, pessoas que conhecem o mercado e as regras. Quem ficar olhando só para os apontamentos, não vai conseguir entender a lógica e a dinâmica dessas novas formas de lavar dinheiro. Se as instituições não se movimentarem, elas vão ficar para trás”, reforça Paulo Vita, head de Compliance do C6 Bank.
A revelação formal da entrada do PCC no coração da Faria Lima (a REAG, principal casa da região envolvida na operação, era até então, uma das maiores gestoras de recursos independentes do país, e vinha dando cabo a uma estratégia de tornar a sua marca mais conhecida pelo público) acendeu um ‘alerta vermelho’ entre as instituições sérias. Não que o problema fosse desconhecido, mas como lembra José Alexandre Buaiz Neto, sócio do Pinheiro Neto Advogados, a proximidade dos criminosos com o mercado, surpreendeu. “Ninguém acreditava que (o crime organizado) estava tão perto. Quando a Carbono Oculto eclodiu e mostrou quão próximo eles estavam do sistema, dentro de várias empresas inclusive, as instituições financeiras sérias perceberam a gravidade do problema”, conta o advogado.
Como costuma acontecer quando operações de grande impacto midiático emergem, o compliance ganhou muito destaque e passou a estar no centro das conversas dos times de negócios de bancos, fundos, gestoras e corretoras de investimentos, um efeito muito mais efetivo do que qualquer circular do Banco Central havia conseguido até então, no melhor estilo “se não é pelo amor, vai pela dor”. Em meio aos receios inerentes que surgem na esteira de situações como essa nos profissionais que respondem pelas decisões de negócios (e dessa forma, assumem o risco), lançou-se luz sobre processos que já existiam nas instituições e expuseram-se lacunas, que até poderiam já terem sido apontadas pelo compliance officer da casa, mas nem sempre eram compreendidos por quem está, com razão, mais preocupado em fechar negócios. “As perguntas passaram a ser: ‘Estamos confortáveis com nossos processos (de diligência)? Tem algo no qual precisamos investir mais (no compliance)?'”, explica Allexandre Lugão, head de Compliance da Pátria Investimentos e para M&A e portfólio de investidas.
Executiva experimentada no mercado financeira e atual diretora de Compliance da seguradora francesa BNP Paribas Cardif, Amanda Seymour, acredita que o grande choque foi para o público externo e para os investidores, que reagiram retirando recursos das operações afetadas; nesse sentido, o caso foi mais educativo para o mercado do que para as instituições propriamente ditas. “Para quem estava de fora, foi um susto. A operação foi um grande aprendizado na dor”, reforça Amanda.
Quem realmente movimenta o dinheiro?
No caso do PCC, dois terços de um total de 89 nomes identificados pela Polícia Civil paulista como sendo as lideranças da organização, estão presos, incluindo aí 14 dos 15 membros da chamada Sintonia Final, instância máxima do grupo. O líder do setor de Raio-X, Gratuliano de Souza Lira, o Quadrado, responsável por monitorar conduta, movimentações e cumprimento de ordens dos faccionados (e por isso tratado pela mídia como o compliance do PCC), também opera de dentro do xadrez. Os holofotes sempre muito voltados à cúpula das organizações, nomes conhecidos como Marcola (PCC), Marcinho VP e Fernandinho Beira Mar (CV) e Nem da Rocinha (Amigos dos Amigos, ADA) podem estar desviando a atenção de quem realmente faz o dinheiro circular e se beneficia, financeiramente, dessa operação. O poder de violência simbólica (e fática também) que esses líderes exercem não se traduz, necessariamente, em controle direto sobre os fluxos financeiros. Certamente eles têm dificuldade para movimentar tamanha quantidade de recursos apenas via parentes (acompanhados de muito perto tanto pela polícia como pelo Ministério Público) ou pessoas muito próximas. Nesse particular, as cúpulas podem acabar concorrendo como uma cortina de fumaça para o trabalho de prevenção à lavagem de dinheiro, que tende a mirar nos nomes mais visíveis ou em apontamentos de mídia negativa e em processos na Justiça ao invés de se preocupar em rastrear o fluxo real dos recursos. “A organização criminosa já sabe o que a gente vai monitorar. Então ela vai ser criativa, vai fazer cada vez mais diferente daquilo que não pegaria no nosso monitoramento. Eles vão estar ali para passar raspando, para que a gente não identifique”, diz Sandra Guida.
A ameaça dentro de casa
Perturbador, embora um caminho de evolução natural no contexto da sofisticação do crime organizado, é que o PCC teria desenvolvido um núcleo dedicado exclusivamente à formação de pessoal qualificado para infiltração em instituições financeiras. Nesse contexto, jovens financiados pela organização são enviados às melhores faculdades e recrutados para posições estratégicas em bancos e gestoras — não para agirem imediatamente, mas para estar posicionados onde possam ser úteis quando necessário. É um movimento similar ao que o próprio grupo teria efetuado com a formação de operadores do Direito, que hoje fazem parte da Sintonia dos Gravatas, a divisão do PCC responsável não só pela defesa dos faccionados, mas por fazer a ponte entre as lideranças presas e os comandos nas ruas.
Isso coloca em evidência um processo que historicamente recebeu menos atenção do que o Know Your Client: o Know Your Employee (KYE). O Banco Central começa a tratar do tema, e as instituições mais avançadas já incorporaram a análise do quadro de funcionários em suas rotinas de compliance. “O PCC hoje tem um núcleo que trabalha só com educação. Eles formam pessoas em faculdades muito boas para que essas pessoas entrem como funcionários das organizações. Entram em áreas-chave, de onde possam, no operacional, de alguma forma aplicar um golpe ou atuar na fraude de documentos”, revela Sandra.
Via de mão dupla
Muito do acesso do crime organizado a instrumentos financeiros legais veio junto com o advento da digitalização e do maior acesso da população ao sistema financeiro promovido pelas fintechs e outros arranjos de pagamentos. Mas o mesmo processo que aumentou a competição e permitiu o acesso de milhões de novos consumidores ao sistema bancário, também abriu brechas relevantes que não foram ignoradas pelos criminosos, sempre atentos e bem assessorados em relação às oportunidades que o sistema lhes apresenta. Com a digitalização acelerada dos últimos cinco anos, volumes que antes eram movimentados em dinheiro físico migraram para o sistema financeiro — e encontraram barreiras de entrada nesse sistema que estavam mais porosas. Ficou muito mais fácil criar uma operação financeira própria; e ao controlá-la buscar meios para fazer o branqueamento do capital. Entre as brechas que se mostraram facilmente aproveitáveis pelos criminosos, estavam as contas-bolsões. “A gente tem 1800 fintechs no Brasil. Quando você fala de fintechs envolvidas com o crime organizado, foram noticiadas três”, conta Rogério Melfi, diretor da ABBAAS, entidade que representa o setor de banking as a service (BAAS).
A viabilidade dessas novas operações foi facilitada pelo avanço das operações de BAAS — quando uma instituição regulada (muitos bancos tradicionais, inclusive) presta a infraestrutura bancária para fintechs e empresas não financeiras operarem serviços financeiros.
O modelo estava em uma zona cinzenta regulatória que perdurou até muito recentemente. Só com a Resolução nº 16 do Banco Central, publicada em novembro de 2025, que se estabeleceu responsabilidades claras: a instituição prestadora do serviço de banking as a service responde integralmente pelo cumprimento das normas de KYC e PLD, não podendo delegar essa obrigação à empresa tomadora do serviço. A medida subiu a régua do setor e antecipou exigências que estavam planejadas para os anos seguintes.
Rogério destaca outro vetor de risco que também ganhou regulação: justamente as ‘contas bolsão’, nas quais recursos de múltiplos usuários ficavam consolidados no CNPJ da plataforma, sem vinculação nominal ao beneficiário final perante o Banco Central. O modelo tinha justificativa operacional — mas se tornou instrumento de evasão de rastreabilidade. “Se eu tenho, digamos, R$ 1 milhão numa conta bolsão e esse dinheiro não está no meu nome perante ao regulador, estando numa conta que permite livre movimentação, abre uma forma de burlar o sistema financeiro. O Banco Central agiu para acabar com isso”, pontua Rogério.
A Lei nº 15.358, aprovada no início de 2026, acrescentou outra camada de responsabilização: instituições financeiras podem agora ser corresponsáveis se recursos ilícitos circularam por seus sistemas e não foram bloqueados, mesmo que a má-fé tenha sido da direção da empresa, não da equipe de compliance. A lei também amplia a possibilidade de bloqueio de recursos ainda na fase investigatória.
A digitalização do mundo, também tornou mais fácil para o crime organizado atuar abaixo do radar em termos de valores, mas com capacidade de gerar e gerir escala suficiente para justificar os seus riscos. A Pluxee — multinacional francesa do setor de vale-benefícios e refeição — ilustra como a pressão do crime organizado alcança segmentos que historicamente não eram associados à lavagem de dinheiro, embora já tivessem ligação com o crime organizado. Carla Valente, gerente de compliance da empresa, explica que a preocupação principal da companhia sempre foi com o desvirtuamento dos produtos: uso de vale-alimentação em estabelecimentos não autorizados, como lojas de cosméticos ou para a compra de bebidas alcoólicas.
Com o tempo e com a regulação do Banco Central sobre produtos de benefício sem destinação específica (cartões de premiação e bonificação aceitos em qualquer tipo de loja), a estrutura de monitoramento se ampliou para incluir análise de origem dos recursos que compram esses benefícios e o perfil dos parceiros credenciados. Em operações recentes relacionadas ao crime organizado, a polícia apontou o uso de restaurantes e cartões de benefícios para a lavagem de dinheiro do PCC. “As recentes operações levaram a companhia a criar mais alertas, com um monitoramento mais apurado e assertivo para que essas situações sejam identificadas o quanto antes”, reforça Carla Valente. A executiva também vem apoiando a necessidade de ampliar o olhar para o quadro societário dos parceiros comerciais credenciados. Hoje, até lojas de brinquedo podem ter participação de organizações criminosas em sua estrutura. A due diligence de parceiros precisa, portanto, ir além da verificação superficial de documentos e apontamentos.
O custo de observância subiu, e agora está justo
Sempre que é preciso lidar com uma nova regulação ou com o aumento do escrutínio nas diligências, o tema do custo de observância volta à tona. E que ninguém se engane, tudo o que aconteceu e vem acontecendo está elevando sim os custos de observância das empresas do setor financeiro. E quanto menor o tamanho da operação, maior tende a ser esse custo, ao menos em termos proporcionais. Claro que para qualquer profissional de compliance, ter mais recursos para trabalhar é um desejo, mas o que parece ter acontecido nesse caso é de que com o aumento dos custos, os orçamentos estão mais adequados às necessidades que já se impunham, em especial para a adoção de novas ferramentas de tecnologia e sistemas.
“O custo está subindo de forma proporcional, não é algo muito alto”, diz Buaiz Neto, do Pinheiro Nero, para quem esse é um custo que as empresas vão ter que absorver. “O custo de não cumprir as regras é muito maior do que o investimento em compliance”. Na mesma linha, Roberta Silveira, da V8, viu os custos subirem, mas para ela isso é necessário e justo para que os profissionais consigam dar conta do trabalho.
O mercado financeiro opera com base em confiança, um ativo intangível de difícil mensuração. Uma decisão de aceitar um cliente de risco elevado em troca de receita pode parecer vantajosa no balanço de curto prazo — mas o custo reputacional de uma exposição pública pode ser irreparável. “Você avalia qual é a multa máxima prevista, avalia o custo de controle, mas tem um custo que é difícil mensurar, que é o reputacional. O mercado financeiro trabalha à base de confiança. Se você não mensurar esse ativo intangível, a decisão em relação ao custo de observância fica cega”, pontua Allexandre, do Pátria.
Mais tecnologia é necessário, mas não suficiente
A adoção de inteligência artificial, machine learning e análise de redes de relacionamento emerge como o principal vetor de transformação do compliance financeiro. Investimento em tecnologia para reduzir falsos positivos e direcionar esforços humanos para situações efetivamente relevantes é o caminho — não simplesmente aumentar o volume de controles sem mudar a lógica de como são feitos. Amanda Seymour aponta que o crime organizado está investindo pesado em tecnologia — mais do que muitas seguradoras, que por cautela com a legislação de proteção de dados, evitam adotar plataformas mais robustas. O resultado é uma assimetria perigosa, como conta a executiva da seguradora francesa: “Enquanto as empresas estão preocupadas apenas com a proteção de dados, o crime organizado está metendo dinheiro em grandes tecnologias. Eles estão muito à frente das empresas”, lamenta Amanda, reforçando que, no ano passado, o número de fraudes no mundo aumentou 100%”.
As transações hoje são realizadas em segundos — o Pix transfere recursos instantaneamente, o que inviabiliza análise manual para volumes em escala. A IA permite identificar padrões e conexões que não seriam visíveis em processos tradicionais. Mas tecnologia sem análise humana qualificada gera falsos positivos em escala, que resultam em bloqueio de clientes legítimos e degradação da experiência.
Rogério, da ABBAAS, observa que o custo de processamento e armazenamento de dados vem caindo, o que permite que empresas que investem em tecnologia absorvam o aumento regulatório sem necessariamente repassar para o ecossistema. O Banco do Brasil, por exemplo, implementou esteira de análise por IA generativa para toda a documentação de crédito — eliminando a amostragem e passando a analisar 100% dos documentos com critérios de rigidez superiores aos do processo manual.
Informação existe, mas não conversa
Um gargalo apontado de forma recorrente é a fragmentação das informações — tanto entre instituições quanto internamente. Sistemas que não se conversam, bases de dados paralelas, plataformas especializadas que não se integram: o resultado é que a capacidade de detectar padrões fica comprometida mesmo quando os dados estão disponíveis.
No âmbito regulatório, a situação é ainda mais sensível. Para fraudes, as instituições financeiras podem trocar informações entre si. Para lavagem de dinheiro, a legislação sobre sigilo bancário impede esse compartilhamento direto — uma assimetria que favorece as organizações criminosas, que operam em rede e se comunicam livremente. Roberta, da V8 Capital, acredita que esse é um tema que merece muita atenção da parte dos reguladores e do mercado, porque dificilmente se avançará sem um maior grau de integração e compartilhamento de informações dentro do sistema. “Eu posso ter a informação de risco aqui, mas se não consigo comunicar isso com outros parceiros, minha identificação só protegeu minha empresa, não o sistema.” “Estamos trabalhando de forma fragmentada contra estruturas consolidadas. Os bancos não podem conversar entre si sobre lavagem de dinheiro, precisam ir ao COAF. Mas o crime opera em rede. A possibilidade de troca de informações (entre os bancos) iria ajudar bastante”, corrobora Paulo Vita, C6 Bank. A própria aplicação do conceito de Open Finance — com a troca consentida pelo cliente de informações entre as instituições financeiras com as quais ele trabalha— para fins de combate à lavagem de dinheiro, poderia ser um caminho virtuoso para dar início a um maior fluxo de trocas entre diferentes agentes do mercado.
A criação de uma lista nacional de suspeitos de lavagem de dinheiro, por exemplo, esbarra em questões de privacidade, sigilo de investigações e regulação antitruste — mas essa é uma discussão que existe. Buaiz Neto, que recentemente trabalhou na coordenação do Guia Global da ICC (Câmara de Comércio Internacional) sobre crime organizado e empresas, lançado em parceria com a CGU no último mês abril de 2026, relata iniciativas em andamento pela ICC, em conjunto com o Ministério da Justiça, COAF e CGU, para desenvolver alguma forma de base colaborativa entre setor privado e setor público. Rogério Melfi menciona que a nova lei que regulamenta os serviços de BAAS, prevê a criação de mecanismos de marcação de CPFs e CNPJs suspeitos de operações com apostas ilegais. Isso poderia ser expandido para abarcar as operações suspeitas de serem lavagem de dinheiro, acredita.
Apesar disso, mesmo com as limitações, há de se questionar se os reportes ao COAF por parte dos agentes obrigados estão sendo feitos de forma ativa. Amanda Seymout lembra que não é necessário ter certeza de que uma operação é ilegal para reportar, basta a suspeita, e que o COAF tem ferramentas para cruzar reportes de múltiplas instituições sobre o mesmo CPF ou CNPJ e com isso identificar padrões.
Uma nova mentalidade é necessária
Embora se reconheça o papel central da tecnologia para coibir o crime organizado de usar o sistema financeiro para lavar o dinheiro, a mudança mais profunda deve ser humana. O perfil do profissional de compliance que o mercado vai demandar é (ou deveria ser) diferente do que predominou nos últimos anos. A era do ‘crachá-crachá’ — verificação de apontamentos, checagem de listas, emissão de relatórios padronizados — chegou ao fim. Até porque, esse é o tipo de trabalho que está paulatinamente sendo substituído por agentes de IA (confira a matéria sobre o assunto nesta edição da LEC). “Não só por conta do crime organizado, mas pela própria evolução do mundo, hoje, você precisa de um perfil profissional com olhar mais crítico e mais amplo de cenários, antenado com as estruturações, os esquemas e os riscos geopolíticos. Não basta só fazer o monitoramento analisando dados e alertas”, acredita Carla, da Pluxee
O analista que apenas reagia a alertas do sistema precisa agora ser capaz de interpretar outputs de modelos de IA, entender estruturas de rede, conhecer os modelos de negócio dos clientes — não apenas os tradicionais, mas os novos como os relacionados à economia criativa e ao mundo digital. “Para trabalhar nessa área, o profissional precisa gostar de aprender. Não dá para ensinar tudo que está acontecendo. Se o cara não está lendo o que sai na mídia quando vir um nome ou tipo de negócio que está surgindo, não vai conseguir fazer as conexões necessárias à uma boa análise”, acredita Paulo Vita. O executivo conta que diante desse novo cenário de mercado, reestruturou a sua equipe. Hoje, metade dela é composta por analistas de compliance tradicionais, e a outra metade focada em machine learning, analytics e inteligência artificial.
Cliente legítimo fora dos velhos padrões
Para ser verdadeiramente pró-negócios, é preciso que os compliance officers que atuam no setor financeiro façam um esforço para ser o mais assertivo possível nas análises e barrar clientes que realmente colocam a instituição em risco. Hoje isso demanda um olhar um tanto quanto diferente, porque olhar para um cliente com base em critérios ultrapassados, pode gerar muitos constrangimentos ao vetar, sem razão, negócios com clientes perfeitamente legítimos.
O surgimento de novos perfis de riqueza — influenciadores digitais, criadores de conteúdo, atletas de esportes eletrônicos — produz históricos financeiros atípicos que podem disparar alertas em sistemas calibrados para lidar apenas com a riqueza tradicional ou oriunda da velha economia. Uma empresa de consultoria operando de um apartamento, faturando alguns milhões ao ano, hoje, não é automaticamente suspeita. Como diz Paulo Vita, esse é na realidade o modelo de negócio de milhares de prestadores de serviço na economia digital. Um influenciador ou um MC sem histórico de crédito que deposita R$ 1 milhão numa conta, do nada, pode ser, simplesmente, bem-sucedido em uma nova economia, o que não diminui a obrigação da área de compliance de fazer a diligência adequada. Ser um compliance pró-negócio não é o mesmo que fazer concessões ao risco. “A prioridade é fechar o negócio. Mas podemos dar prioridade sem pular etapas do processo de avaliação”, reforça Roberta, da V8 Capital. Apenas é necessário ter em mente que o compliance, que também não se dedicar a entender esses novos modelos de negócios, corre muito risco de barrar o legítimo e deixar passar o ilícito. E isso é péssimo para os negócios, em todos os sentidos,
O compliance que rejeita por excesso de cautela não é neutro — suas decisões têm custo direto para o negócio. No caso de clientes que são barrados indevidamente e tomam crédito em outra instituição, o banco perde duas vezes: perde o cliente legítimo e perde a receita do produto. A tecnologia resolve parte do problema ao diminuir falsos positivos — o cliente que seria negado na mão, mas que os modelos conseguem identificar como legítimo.
Na prática, o que resolve a questão ainda é a documentação. Um influenciador que emite nota fiscal, tem contrato com plataformas de publicidade, recebe por transferência identificável — é um cliente defensável. Um influenciador que recebe uma chuva de Pix de valores pequenos de perfis anônimos, sem nota, sem produto, sem contrato, representa um risco real — não porque seja criminoso, mas porque o fluxo é indistinguível do ilícito. Rogério Melfi, da ABBAAS, é direto: o sistema financeiro não tem como suportar esse tipo de relacionamento sem documentação, independente de quão legítima seja a atividade. O que difere um cliente legal do laranja, na prática, é a capacidade e disposição de comprovar a origem dos recursos. O desafio em relação a atuação do crime organizado, como já foi dito, é que os seus prepostos vêm aprendendo a preparar essa documentação, tornando premente a necessidade de novos e mais complexos modelos de análise de informações sobre o cliente,
A autodeclaração já não basta
Os processos que aceitam autodeclaração de origem de renda sem nenhum mecanismo eficaz de verificação da informação é um dos pontos de maior fragilidade do sistema. No varejo bancário, a prática é comum: o sistema pergunta qual é a renda mensal do cliente, o cliente preenche um campo, e isso consta no cadastro como informação válida.
Allexandre Lugão, do Pátria Investimentos, aponta que o bom e velho KYC, com comprovação efetiva da origem da renda é a fronteira mais relevante para conter a lavagem em escala. O crime organizado não vai usar o nome dos seus líderes para operar no varejo — vai usar laranjas. E os laranjas recrutados pelo PCC têm, justamente, CPF limpo e documentação em ordem. O problema está na cadeia por trás dele. Eles passam pelos processos tradicionais sem alerta, porque o sistema está calibrado para encontrar o nome do criminoso, não para verificar se a operação faz sentido econômico.
A solução que começa a se delinear é a substituição progressiva da autodeclaração pela verificação cruzada de fontes externas — Receita Federal, birôs de crédito, histórico de transações, dados de plataformas parceiras.
Pressão crescente, ritmo próprio
Existe certo consenso entre os profissionais entrevistados para esta reportagem de que os reguladores estão se movendo na direção certa, antecipando planos programados para acontecer no médio prazo por pressão dos acontecimentos de mercado — e a tendência é que as exigências aumentem progressivamente. O Banco Central teve de antecipar a entrada em vigor de regulações porque uma fintech com problema não é um problema isolado. “Ela está conectada a múltiplos bancos e pode gerar contágio”, lembra Paulo Vita. A própria Resolução 16 do órgão, traz também esse componente prudencial. Mas até pela sua natureza legal, os reguladores têm ritmo próprio, com cuidados que nem sempre são visíveis para o setor privado, mas as regras, reconheça-se, estão melhores hoje do que estavam um ano atrás.
Banco Central, CVM e COAF vêm reforçando o discurso sobre a obrigatoriedade de as instituições irem além na busca pela identificação dos reais beneficiários finais (algo que vem sendo exaustivamente perseguido por UIFs de todo o mundo) e da abordagem baseada em risco (outro tema que já não é novo, mas que agora é avaliado com mais rigor pelos reguladores, em especial de setores que viram o risco se elevar sem que as estruturas de compliance seguissem no mesmo caminho). Os reguladores vêm reforçando às empresas do setor financeiro a necessidade de não apenas ter a identificação do cliente, mas também a classificação atribuída a ele. “Nem todo cliente é alto risco, nem todo é baixo risco. Você precisa ter essa classificação muito clara”, pontua Roberta Silveira.
Claro que essa relação entre regulador e setor regulado tem pontos naturais de tensão. Nos últimos anos, como lembra Allexandre Lugão, o modelo de acompanhamento mudou de um em que o governo investigava, para um em que as empresas investigam e o governo apenas valida. Ao transferir parte do trabalho, o setor público espera que as empresas sejam diligentes nos seus processos de identificação, o que pode gerar uma grande confusão, a começar por uma questão semântica. “Os limites do que constitui ‘esforço máximo’, que é o que o regulador espera das empresas nesse caso, não estão claramente definidos — o que gera incerteza jurídica e dificulta a tomada de decisões de investimento dentro de uma perspectiva de compliance”, acredita Allexandre.
Laranjas turbinadas
Enquanto a operação Carbono Oculto mostrou operações do PCC com fundos exclusivos, uma estrutura sofisticada e restrita a clientes com um volume de recursos bastante razoável, para dizer o mínimo, um problema mais mundano ganha nova dimensão, também por conta do advento da tecnologia: as contas de laranja. A prática de alugar a própria conta bancária para receber recursos ilícitos em troca de uma comissão tornou-se suficientemente comum em algumas regiões para preocupar o setor. O problema é que uma conta laranja, individualmente, é difícil de se distinguir de qualquer outra: o CPF é legítimo, a documentação está em ordem, o histórico é limpo. O que diferencia é o padrão de uso. E também como já dito anteriormente nesta reportagem, com a tecnologia, ficou mais fácil para os criminosos gerirem um grande volume de pequenas contas de laranja, isso quando eles não concentram parte dessas contas em fintechs controladas por eles.
O sistema financeiro desenvolveu mecanismos de marcação de CPFs com histórico de uso indevido, e o MED 2.0 — evolução do Mecanismo Especial de Devolução do Pix — melhora a rastreabilidade dos fluxos ao longo da cadeia de transações. Mas a velocidade com que o dinheiro passa de uma conta para outra ainda representa um desafio real “Essa velocidade acaba favorecendo que ele passe de uma conta para uma segunda, para uma terceira, para uma quinta — e aí se perde um pouco a rastreabilidade”, aponta Rogério Melfi, da ABBAAS.
O onboarding é só o começo, não o fim
Uma das mudanças mais relevantes para os profissionais de compliance financeiro é o deslocamento de uma análise concentrada na entrada do cliente, o onboarding, para um monitoramento que se estende por todo o ciclo de vida da relação dele com a instituição. O cliente aceito hoje pode se tornar um risco amanhã — por envolvimento com organizações criminosas, mudança de comportamento financeiro ou porque o que parecia legítimo no onboarding revelou-se uma cobertura bem construída.
A V8 Capital, por exemplo, acompanha as movimentações dos clientes de carteira administrada (aquela nas quais a V8 faz a gestão dos investimentos do cliente) ao longo do tempo. Quando o volume que entra não coincide com o que foi projetado no cadastro, isso já é sinal para uma nova conversa com o cliente, para que se entenda a origem do aumento de recursos.
Mesmo no caso de operações de varejo, a tecnologia já viabiliza esse monitoramento contínuo em escala. E esse apoio é necessário porque com o Pix, com transações acontecem em segundos, é impossível fazer análise manual em tempo real para volumes relevantes. Modelos de machine learning treinados com o histórico de movimentação de cada cliente identificam desvios de padrão que seriam invisíveis para um analista humano operando transação por transação.
O elefante na sala
O mercado financeiro é naturalmente mais propenso a lidar e a aceitar tomar mais risco do que outras atividades econômicas. E isso, não é de hoje, mas desde que o mundo é mundo. Mas há instituições que conscientemente aceitam mais risco do que seria prudente porque o volume de dinheiro compensa no cálculo de curto prazo, os riscos de longo prazo. Mais do que isso, existem instituições e profissionais deliberadamente cegos para a origem dos recursos, e quando não se vê, não se sabe o que investigar.
Existem estruturas que blindam a liderança da área de compliance de acesso a informações críticas criam um ambiente onde o compliance pode ser contornado. O Banco Master tinha governança estruturada, diretor de compliance estatutário nomeado, processos documentados — e um comitê pequeno operando um desvio bilionário por fora de tudo isso. No caso Americanas, o compliance funcionava onde deveria e era bloqueado onde precisaria ter funcionado. Particularmente no mercado financeiro, multas são tratadas como custo operacional, e mesmo o risco de prisão foi progressivamente absorvido ao longo dos últimos anos. O dinheiro que ‘fala mais alto’ garante acesso aos melhores advogados em qualquer cenário. Para esse segmento do mercado, o KYC rigoroso não é proteção — é obstáculo ao negócio. Amanda Seymour conta que chegou a ouvir, de um executivo do setor, que a empresa simplesmente não faria treinamentos obrigatórios de compliance: pagaria a multa se viesse, e bancaria o advogado se alguém fosse preso. Nesses casos, é importante sempre que o profissional de compliance se resguarde com o registro das suas análises e recomendações feitas, independentemente dele sair ou continuar na empresa.
Sandra Guida faz um alerta sobre a ética individual do compliance officer — e aponta uma tendência preocupante: o profissional que genuinamente segue seus princípios éticos está ’em extinção’. “O compliance tem que ser independente, reportar para o conselho e ao comitê de auditoria. O diretor de compliance deve colocar o cargo à disposição quando tiver impasse. Ética e reputação profissional vão muito da pessoa. Já tive situações de muito embate e disse: se seguir esse caminho, estou fora. É o meu nome, a minha reputação que está em jogo”, alerta Sandra Guida.
Buaiz Neto faz a distinção entre dois grupos: instituições que genuinamente desconheciam a proximidade do crime organizado e precisaram recalibrar seus controles — e instituições que sabiam, aceitaram o risco deliberadamente e apostaram em não ser identificadas. “Para o primeiro grupo, os eventos recentes funcionam como choque que justifica revisão de processos. Para o segundo, apenas o endurecimento regulatório e a nova lei de corresponsabilização criminal criam incentivos reais para mudança”, conclui.
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