Quando eu pensava que a Copa do Mundo não me traria mais nenhuma novidade ou relevância que justificasse trazê-la novamente à minha coluna, eis que ela retorna para falarmos de Integridade Institucional. Durante muitos anos, Compliance foi compreendido como um mecanismo destinado exclusivamente ao cumprimento de leis e regulamentos. Essa visão, entretanto, tornou-se insuficiente diante das transformações da governança corporativa e institucional. Atualmente, Compliance representa um sistema integrado de prevenção de riscos, promoção da ética, fortalecimento da cultura organizacional e proteção da reputação.
A ISO 37301:2021, norma internacional sobre Sistemas de Gestão de Compliance, estabelece que organizações devem criar mecanismos capazes de assegurar não apenas a conformidade legal, mas também a promoção de uma cultura de integridade baseada em valores éticos, transparência e accountability. Da mesma forma, a ISO 37000, dedicada à Governança das Organizações, enfatiza que decisões institucionais devem considerar os interesses legítimos dos stakeholders e preservar a confiança pública.
Sob essa perspectiva, a campanha pública que defende a exclusão da Argentina das Copas do Mundo oferece um relevante estudo de caso sobre governança, gestão de riscos reputacionais, comportamento dos stakeholders e Compliance. Mais do que discutir o mérito da proposta defendida pelos participantes da campanha, o episódio permite compreender como a sociedade contemporânea passou a exigir das empresas respostas compatíveis com seus próprios valores institucionais.
Compliance além da legalidade
Um dos maiores equívocos acerca do Compliance consiste em reduzi-lo ao simples cumprimento das normas jurídicas. Organizações modernas, compreendem que a conformidade possui três dimensões fundamentais: legal, ética e reputacional.
Uma instituição pode cumprir integralmente seus regulamentos internos e, ainda assim, sofrer perda significativa de legitimidade caso seja percebida pela sociedade como indiferente a valores como respeito, responsabilidade e integridade.
É justamente nesse ponto que a gestão de riscos prevista pela ISO 37301 aproxima-se da Governança Corporativa. O objetivo não é apenas evitar sanções administrativas ou judiciais, mas preservar um ativo muito mais valioso: a confiança.
A confiança constitui elemento essencial para qualquer organização. Sem ela, investidores deixam de investir, consumidores deixam de consumir e patrocinadores deixam de associar suas marcas à instituição.
No esporte, essa lógica apresenta características ainda mais evidentes.
O futebol como organização orientada aos stakeholders
Embora frequentemente analisado apenas sob sua dimensão esportiva, o futebol internacional constitui um complexo ecossistema econômico e institucional. Competições internacionais movimentam bilhões de dólares em direitos de transmissão, publicidade, turismo, patrocínio e licenciamento de produtos. Entretanto, todo esse sistema depende da percepção de legitimidade construída perante o público. Sob a ótica da ISO 37000, os torcedores representam stakeholders fundamentais.
Na governança contemporânea, stakeholder é todo indivíduo ou grupo capaz de influenciar ou ser influenciado pelas decisões de determinada organização. Os torcedores enquadram-se perfeitamente nessa definição. Mais do que espectadores, eles consomem o espetáculo esportivo. Compram ingressos, produtos oficiais, serviços de streaming, pacotes turísticos e impulsionam receitas publicitárias por meio da audiência. Sob essa perspectiva, é perfeitamente possível estabelecer uma analogia entre torcedores e clientes.
Da mesma maneira que consumidores deixam de adquirir produtos de empresas cuja reputação foi comprometida, torcedores também podem modificar suas preferências quando percebem comportamentos incompatíveis com os valores que esperam encontrar em uma competição esportiva. Essa mudança comportamental constitui um importante indicador de risco reputacional.
A campanha como manifestação legítima dos stakeholders
Sob essa ótica, a campanha pela exclusão da Argentina pode ser interpretada como uma manifestação organizada de stakeholders. Independentemente das diferentes opiniões existentes sobre seu objetivo, a campanha representa um exercício legítimo da liberdade de expressão e da participação social na construção do debate público.
Sob o enfoque do Compliance, campanhas dessa natureza funcionam como mecanismos de identificação de riscos reputacionais. Elas revelam percepções, expectativas e preocupações existentes entre segmentos relevantes do público. Nesse contexto, chamou atenção o fato de diversos torcedores declararem apoio à seleção espanhola durante a decisão, afirmando que sua preferência decorreu da percepção de que determinados comportamentos atribuídos à equipe argentina não correspondiam aos valores esportivos que desejavam prestigiar.
Não se trata de afirmar que todos os torcedores compartilharam dessa percepção, tampouco que ela constituiu consenso. O aspecto relevante, sob a ótica da governança, é outro: a percepção de parte significativa do público influenciou seu comportamento como consumidor do espetáculo esportivo.
Essa mudança evidencia que reputação produz efeitos econômicos e institucionais concretos.
Compliance, risco reputacional e comportamento do consumidor
O modelo COSO Enterprise Risk Management (ERM) reconhece que riscos reputacionais podem produzir impactos superiores aos decorrentes de perdas financeiras imediatas. Uma organização cuja imagem é questionada enfrenta maior dificuldade para atrair investidores, patrocinadores e parceiros estratégicos.
No ambiente esportivo, ocorre fenômeno semelhante. Quando parte dos consumidores do espetáculo manifesta preferência por outro competidor em razão de valores percebidos como mais compatíveis com ética esportiva, a organização responsável pela competição deve compreender esse movimento como informação estratégica.
Compliance eficiente não significa ceder automaticamente às pressões sociais. Significa reconhecer que essas manifestações representam indicadores relevantes para a gestão de riscos e Ignorá-las seria incompatível com as melhores práticas internacionais de governança.
Accountability e transparência
Outro princípio fundamental do Compliance moderno é a accountability. Organizações precisam demonstrar que suas decisões são tomadas mediante critérios objetivos, transparentes e verificáveis. Isso significa que campanhas públicas podem e devem provocar reflexão institucional, desde que a resposta das entidades responsáveis permaneça fundamentada em regulamentos, evidências e procedimentos previamente estabelecidos. Essa combinação fortalece tanto a democracia quanto a segurança jurídica, pois a sociedade exerce seu papel de fiscalização, e as instituições exercem seu dever de decidir com imparcialidade.
São essas relações que constituem um dos pilares da boa governança.
ESG e reputação institucional
A agenda ESG (Environmental, Social and Governance) ampliou significativamente a importância dos fatores sociais e da governança na avaliação das organizações. Patrocinadores, investidores e consumidores passaram a observar não apenas desempenho financeiro, mas também postura ética, diversidade, responsabilidade social e qualidade da governança.
No esporte, esse movimento tornou-se igualmente evidente. Eventos esportivos globais são permanentemente avaliados quanto à sua capacidade de promover inclusão, respeito, integridade e responsabilidade institucional. Nesse cenário, campanhas sociais deixam de representar apenas manifestações de opinião e passam a constituir indicadores relevantes da percepção pública sobre essas organizações.
Conclusão
A campanha pela exclusão da Argentina das Copas do Mundo revela como o Compliance ultrapassou os limites tradicionais da conformidade normativa para tornar-se instrumento de proteção da legitimidade institucional. Mais do que discutir a procedência das reivindicações apresentadas pelos participantes da campanha, o episódio demonstra que organizações contemporâneas precisam compreender a crescente influência de seus stakeholders sobre a construção da reputação.
Os torcedores, assim como consumidores em qualquer mercado, influenciam diretamente o valor simbólico e econômico das instituições esportivas. Suas escolhas, preferências e manifestações públicas constituem importantes indicadores da confiança depositada nessas organizações. Sob a perspectiva das normas internacionais de Compliance e Governança — especialmente a ISO 37301 e a ISO 37000 — ouvir os stakeholders, identificar riscos reputacionais e responder com transparência são elementos essenciais para a preservação da credibilidade institucional.
A campanha analisada oferece uma valiosa oportunidade para refletir sobre a importância da integridade, da gestão de riscos e da responsabilidade organizacional em um ambiente cada vez mais orientado pela confiança pública. Em um mundo em que reputação representa um dos ativos mais valiosos de qualquer instituição, Compliance deixa de ser apenas um conjunto de controles internos para tornar-se uma estratégia permanente de construção de legitimidade, sustentabilidade e confiança.
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