Se você trabalha com Governança, Riscos e Compliance (GRC), talvez já tenha sentido aquela leve sensação de estar jogando uma partida interminável de Tetris. As peças caem sem pedir licença, o ritmo acelera quando menos convém, e o seu trabalho é simples, pelo menos na teoria: fazer tudo se encaixar perfeitamente.
Spoiler: não vai. E está tudo bem.
Fase 1: As peças sempre vêm, e não são opcionais!
No Tetris, você não escolhe as peças.
No GRC, também não.
Regulamentações novas, auditorias inesperadas, mudanças estratégicas, crises reputacionais e riscos emergentes despencam
na sua tela corporativa como blocos em queda livre. Como já dizia Warren Buffett, “Risk comes from not knowing what you’re doing” (Fonte: Berkshire Hathaway Annual Report, 1993).
E aí começa o jogo: você gira, reposiciona, negocia, documenta, cria controles, normas, treina, tudo para encaixar aquela peça aparentemente inconveniente em um espaço que já está longe do ideal.
Fase 2: O sonho do encaixe perfeito (e a realidade cruel)
Todo profissional de GRC já sonhou com aquele cenário utópico de controles eficientes, riscos mapeados, compliance totalmente aderente e zero não conformidades. Seria o famoso momento perfeito em que tudo se alinha. Mas a realidade é outra. Controles falham, processos não são seguidos, fornecedores ignoram cláusulas críticas e colaboradores criam atalhos. Como destacou Philip B. Crosby, “Quality is free, but only to those who are willing to pay heavily for it” (Fonte: livro Quality is Free,1979).
E pronto, surge o buraco. Perfeição em compliance é um objetivo, mas tratá-la como condição básica costuma gerar mais frustração do que resultado.
Fase 3: Os buracos existem — e vão continuar existindo
Aqui está uma verdade importante: não existe operação sem falha. No Tetris, um pequeno erro pode gerar um espaço difícil de corrigir depois. No GRC, decisões imperfeitas, limitações de recursos ou análises incompletas deixam lacunas que podem persistir. De acordo com a ISO, “risk is the effect of uncertainty on objectives” (Fonte: ISO 31000:2018 Risk Management Guidelines). Ou seja, a incerteza não é exceção, é parte do jogo. Ignorar isso é muito mais perigoso do que aceitar a existência de falhas.
Fase 4: A ansiedade do nível avançado
Quanto mais você evolui na carreira, mais rápido
o jogo fica. Mais responsabilidades, mais exposição e mais decisões com impacto real. E junto com isso, um risco pouco discutido: o desgaste emocional. A tentativa de controlar tudo pode levar a um estado constante de alerta. Como aponta a Organização Mundial da Saúde, “Burnout is a syndrome conceptualized as resulting from chronic workplace stress that has not been successfully managed” (Fonte: WHO, International Classification of Diseases, 2019). Se tudo é tratado como prioridade máxima, a consequência natural é o esgotamento.
Fase 5: A arte de jogar bem (sem enlouquecer)
Os melhores jogadores não são os que nunca erram, mas os que sabem se recuperar.
No GRC, isso significa aceitar a imperfeição, priorizar riscos relevantes, comunicar com clareza e desenvolver resiliência, inclusive emocional. Você não é o único responsável por tudo funcionar perfeitamente. É parte de um sistema maior! Muitas vezes, com mais poder que você.
Conclusão: Jogar bem é mais importante do que jogar perfeito
No fim das contas, trabalhar com GRC é aceitar que o jogo nunca termina. Sempre haverá novas peças, novos desafios e novos problemas para resolver. Alguns buracos vão permanecer mais tempo do que você gostaria, e tudo bem.
Como sintetiza Nassim Nicholas Taleb, “We don’t learn that we are fragile; we learn that we are antifragile” (Fonte: livro Antifragile, 2012). O objetivo não é eliminar completamente os problemas, mas fortalecer a capacidade de lidar com eles.
Mas óbvio! Os profissionais de GRC são movidos pela persistência. Sem persistência e integridade, o profissional de GRC deixa de sustentar o jogo ético e passa a tolerar buracos que nunca deveriam fazer parte do jogo.
Alem de persistência, noção clara de realidade.
O profissional de GRC não pode viver de utopia ou ilusão. Precisa compreender quando a velocidade das peças e das escolhas passarão a comprometer sua reputação, e encerrar o jogo. Começar de novo. Talvez em outro lugar.
Por fim, talvez o verdadeiro diferencial não esteja em jogar perfeitamente, mas em continuar jogando bem, mesmo quando o cenário está longe do ideal. E se for possível manter um pouco de leveza no processo, melhor ainda. Afinal, no meio de políticas, controles e matrizes de risco, seguir em frente já é, por si só, uma grande vitória.
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