Mesmo com um ambiente repentinamente conturbado, os dados da pesquisa do Anuário ORIGEM LATAM 2025 com as lideranças da área de RIG nas empresas da América Latina ainda não refletem grandes mudanças na forma como a área está estruturada
A pesquisa do Anuário ORIGEM LATAM dedicada a compreender as estruturas e a evolução da área na região, com a participação de líderes da área de RIG em empresas, entidades setoriais e consultorias especializadas da Argentina, Chile, Colômbia, México e Paraguai chega à sua quarta edição em meio a um momento de confusões no comércio internacional geradas pelas ações do governo de Donald Trump nos Estados Unidos, conflitos retóricos escalando, em casos extremos, para algum nível de ação e cuja única certeza é a de que precisaremos lidar com um cenário de muito mais incertezas, ao menos no curto prazo. “Estamos atravessando um período de redefinição da ordem global, repleto de tensões geopolíticas, onde o multilateralismo está sendo testado e com novas prioridades e sensibilidades entre a população e as comunidades”, explica Santiago Lopez, diretor para América Latina e Caribe do International Council of Beverages Associations. Para o dirigente setorial, baseado na Colômbia, esse ambiente multiplica a complexidade para o setor privado e suas áreas de Relações Institucionais e Governamentais (RIG), e representa uma oportunidade para a lideranças da área na região evoluírem, adaptando-se para atuar na construção de pontes que possibilitem soluções sustentáveis, legítimas e multilaterais.
Diante desse cenário volátil, os profissionais de RIG da região têm uma série de desafios a se enfrentar, mas também algumas vantagens. A principal delas é o fato de que por essas bandas do mundo, todos estão, em maior ou menor grau, acostumados a lidar com cenários políticos, jurídicos e regulatórios voláteis e que mudam muito rapidamente, algo com o qual os colegas europeus e norte-americanos não estão tão acostumados. “Agora, as relações internacionais e a falta de um quadro jurídico supranacional exigem que sejamos ainda mais ágeis e resilientes, a fim de proporcionar às nossas empresas a melhor visibilidade possível e um plano de ação que lhes permita aproveitar as oportunidades”, acredita Diego Ramirez Vincent, Diretor de Relações Governamentais e de Sustentabilidade da montadora japonesa Nissan, no México.
O perfil das empresas representadas na pesquisa
60,4% das empresas representadas na base têm receita anual, considerando apenas a operação do país na qual o profissional está radicado, de US$ 500 milhões ou mais (algo como R$ 2,7 bilhões pelo câmbio de novembro de 2025). Em termos de número de funcionários, também considerando o headcount no país onde o respondente está baseado, 59,3% atuam em empresas com mais de 1.000 funcionários, com 37% do total, em companhias com mais de cinco mil pessoas. Praticamente dois terços da base pesquisada está em empresas com capital aberto, sendo que em 22,8% dos casos existe alguma relação com o mercado de capitais local.
A esmagadora maioria das companhias presentes na base (88,9%) é de capital estrangeiro em relação à operação na qual a liderança que respondeu a pesquisa está baseada. Destas companhias, 43,5% têm capital norte-americano.
Entre os segmentos econômicos mais destacados na base da pesquisa, o setor de tecnologia desponta, respondendo por 18,6% do total de participantes, seguido pelas lideranças de RIG no segmento da saúde, farmacêutico e hospitalar (11,4%), de energia e instituições financeiras (10% cada).
A idade média da liderança de RIG nos países pesquisados é de 42,8 anos, com 15 anos de atuação na área e que está sentado na sua atual cadeira há cerca de quatro anos, também considerada a média.
Em termos de formação, as lideranças de RIG na região, no seu conjunto, têm formações mais diversificadas do que vemos por aqui no Brasil. O Direito é a graduação mais comum entre os respondentes da pesquisa, com 34,1% de citações, mas o curso de Ciência Política também se destaca, com 24,4%. Na sequência, Economia e Relações Internacionais (15,9% cada) e Administração e Políticas Públicas (14,6%). 100% dos respondentes da pesquisa disseram dominar o inglês, e 26,8% o francês. Já o português faz parte do léxico de 23,2% dos latino-americanos que lideram a área de RIG nos países pesquisados pelo Anuário ORIGEM LATAM.
A liderança das áreas de RIG nos países latino-americanos pesquisados segue sendo uma cadeira com predominância masculina ainda muito predominante. Na pesquisa deste ano, apenas 29,3% dos respondentes são mulheres (eram 29,9% no ano passado e 34,7% em 2023). É um percentual que contrasta com o espetacular avanço da participação feminina nas cadeiras de gestão e comando das áreas de RIG no Brasil.
Paradoxalmente, quando se olha para a presença feminina no ambiente político da América hispânica, ela é das mais elevadas do mundo, fruto de políticas de cotas estabelecidas pelos países da região desde os anos 1990. Na América Latina, de forma geral, 36,6% das cadeiras parlamentares são ocupadas por mulheres, de acordo com dados da União Interparlamentar e da ONU Mulheres. Por aqui, nas duas casas parlamentares federais a participação feminina fica abaixo dos 20%.
Questionados sobre o papel que a área de RIG exerce em relação às políticas de diversidade e inclusão nas suas empresas, 61,9% das lideranças de RIG nos países pesquisados disseram que a área participa ativamente do processo, mesmo sem liderar o processo.
Ainda falando sobre o perfil dos profissionais, as cinco habilidades que eles apontam como sendo as mais importantes para que um profissional de RIG possa atuar de forma efetiva nos próximos anos estão “comunicação efetiva”, “ética e integridade” e “pensamento estratégico”, ambas com 25,8% de menções; seguidas pela capacidade de construir bons “storytellings” e de “negociar e resolver conflitos”, apontadas por 21,2% dos participantes da pesquisa.
Em relação a governança da área nas empresas, em 50,8% dos casos o reporte principal é feito para a liderança regional ou global da área de RIG. Em outros 34,4% dos casos, a liderança de RIG da empresa se reporta diretamente ao CEO ou principal executivo da companhia no país. “As relações governamentais estão recebendo mais atenção no desenvolvimento de estratégias do que antes”, reconhece German Arias, gerente sênior de Governo e Assuntos Regulatórios da SBA Communications na Colômbia. Para o executivo, no mundo atual os executivos passaram a entender que os efeitos do ambiente político e econômico são decisivos para os resultados da empresa. “Essa compreensão tem um impacto direto tanto na concepção da estratégia quanto em sua execução por meio das áreas de RIG”, complementa German.
Em termos de disposição de orçamentos para a área, 22,7% dos respondentes têm budget anual de mais de US$ 1 milhão, acima dos 20% que responderam o mesmo no ano passado. A maior parcela dos respondentes, 31,8%, diz trabalhar com entre US$ 200 mil até R$ 499 mil.
Também considerando apenas profissionais com atuação em empresas, em 44,2% dos casos eles atuam em companhias com áreas de RIG com seis ou mais profissionais atuando no país onde o respondente está alocado. No ano passado, esse percentual foi de 43,3%. Na outra ponta, 17,6% operam RIG em empresas onde apenas o respondente e mais uma pessoa tocam a área, enquanto apenas 8,8% dizem ser o único profissional de RIG atuando na operação local da empresa. Quase dois terços dos respondentes com atuação nas companhias e que responderam à pesquisa do Anuário ORIGEM LATAM 2025 ocupam posições de liderança regional, ou mesmo global.
De volta a base ampla da pesquisa, considerando profissionais de todos os segmentos, 43,5% dos respondentes disseram ter ampliado sua equipe, sendo 14,5% trouxeram para a equipe profissionais de RIG de nível gerencial ou superior.
As ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) também ganham mais espaço nas empresas da região. Bem mais espaço, na verdade. Neste ano, 63,6% disseram já fazer uso da IA, um grande salto em relação aos 44,1% que disseram o mesmo na pesquisa de 2024. A esmagadora maioria, 61,4%, usa as ferramentas na produção inicial de documentos e projetos para atividades de RIG da companhia entre os que ainda não o faziam, mais da metade disse ter planos de adotar a tecnologia ainda dentro de 2025.
Prioridades, desafios e preocupações
Em um ano que vem se colocando desafiador para o comércio internacional, e particularmente para países como Colômbia e México, muito mais dependentes das vendas para os Estados Unidos do que o Brasil, por exemplo, fez crescer a demanda por análise geopolíticas externas, tudo leva a crer para empresas mais especializadas. Por isso, o percentual de respondentes que disseram que realizam a análise geopolítica, majoritariamente, com terceiros, saltou de 46,5% no ano passado, para 58,6% neste ano.
Assim como acontece no Brasil, a interlocução com agentes do poder executivo é a prioridade na atuação dos profissionais de RIG para 63,2% dos respondentes, seguida de perto pelo acompanhamento da pauta legislativa, apontada por 61,8%.
O diálogo sólido e transparente, tanto com membros do legislativo, quanto do executivo, também são, de longe, apontados como os principais desafios do dia a dia dos profissionais de RIG, sendo citados por 55,9% e 54,4% da base da pesquisa, respectivamente.
Já quando questionados sobre o que mais lhe preocupam, aí o destaque fica mesmo nas relações com o poder executivo, resposta de 65,2% dos participantes da pesquisa e percentual bem acima dos 39,4% que tem a mesma preocupação quando tais relações se dão com o legislativo.
As relações com reguladores preocupam mais a 42,4% da base da pesquisa.
GRÁFICOS
