Será que vou ser substituída por um modelo de inteligência artificial? Essa pergunta ronda boa parte dos profissionais hoje, e não é diferente com quem atua em compliance. Mas quando olho para essa pergunta com mais cuidado, percebo que ela esconde uma questão mais importante: a resposta não depende da tecnologia. Depende de que tipo de profissional cada um decide ser.
Tenho um perfil multidisciplinar — atuo como professora de graduação, pós-graduação e MBA, sou palestrante e facilitadora corporativa em temas como liderança, comportamento humano, comunicação, carreira e empreendedorismo. Essa diversidade não é acaso: é fruto de uma curiosidade que sempre tive de entender coisas distintas e de conectá-las. E é justamente essa capacidade de conectar — de ir além do conteúdo técnico — que considero o centro da discussão sobre IA e carreira.
O olhar crítico é o que não se terceiriza
A inteligência artificial só substitui quem se permite ser substituível. Se você é um profissional meramente operacional — aquele “da planilha”, que apenas executa —, a IA de fato consegue fazer o que você faz. Mas se o seu diferencial é a visão crítica, o olhar questionador sobre o que você entrega e sobre como isso se conecta com o negócio, esse é um território que a máquina não ocupa sozinha.
A IA pode me ajudar a analisar grandes volumes de dados, tarefas repetitivas, contextos e cenários. Isso é real e é bem-vindo. Mas o ponto de destaque de cada profissional está em outro lugar: na capacidade de analisar criticamente aquilo que é gerado — inclusive pela própria IA. Essa nunca foi uma habilidade nova, mas hoje ela é ainda mais exigida, porque se a inteligência artificial já pode trazer uma análise pronta, a pergunta que fica é: qual é, então, o seu papel?
Quando todo mundo fica com a mesma cara
Um risco que tenho observado de perto — e que chamo de harmonização textual — é o de textos, apresentações e conteúdos começarem a soar iguais, porque todos usam a IA da mesma forma. Assim como existe a harmonização facial, em que rostos diferentes passam a se parecer, os textos também estão ficando com a mesma cara.
Uso a IA para estruturar um raciocínio ou revisar uma aula, mas quando releio e percebo que ficou com “cara de apresentação de qualquer professor”, faço questão de trazer de volta o meu tom. Recentemente, escrevi um artigo a partir de uma fala minha em uma palestra: pedi à IA que organizasse o conteúdo com a minha linguagem, a partir do que eu realmente disse. O resultado até ficou bom tecnicamente, mas quando li, pensei: “essa não sou eu.” Fui eu, então, que reescrevi o tom, até o texto soar como eu de fato falo. Se está tudo igual, a pergunta que fica é: qual é o seu olhar de fato?
O preço de terceirizar até o pensar
Há um segundo risco, que considero ainda mais sério: a atrofia cognitiva. Quando terceirizamos tudo para a IA — sem ler, sem criticar, sem revisar —, vamos perdendo, aos poucos, a nossa capacidade de cognição racional. Vejo isso na prática como docente: quando um aluno entrega um trabalho que é puro copia e cola, sem ter realmente lido ou questionado o que a IA escreveu, isso é atrofia acontecendo diante dos meus olhos.
Manter a mente em movimento significa continuar estudando, inclusive coisas fora da própria rotina, que ampliem repertório. E repertório é a base de tudo: como comunicar bem algo sobre o qual não tenho repertório? Como pedir um prompt assertivo, ou reconhecer quando o que a IA entrega não está bom, se eu mesma não leio, não escrevo, não penso com as minhas próprias palavras? O exercício da escrita continua sendo insubstituível — não pela técnica em si, mas pelo ato de pensar que ele exige.
Do operacional ao estratégico
Essa discussão toda desemboca em uma pergunta prática: por que você é chamado para uma reunião? Porque gera dados operacionais, ou porque tem uma visão crítica que se conecta ao negócio? Cada vez mais, os profissionais precisam entender o impacto do que estão analisando — com ou sem ajuda da IA — para o negócio como um todo. No compliance, isso significa uma atuação preventiva: não estamos aqui torcendo para que algo aconteça, e sim comunicando, de forma clara, por que algo não deve acontecer.
Aprender com IA sem abrir mão do repertório
A inteligência artificial pode — e deve — ser usada a favor da aprendizagem, mas de um jeito específico. Recentemente, assisti a uma palestra e fiz várias anotações: fotografei slides, conectei ideias ao que já sabia. Ao chegar em casa, coloquei tudo na IA e pedi que ela estruturasse não um resumo, mas um plano de estudos a partir dos pontos de contato entre aquele conteúdo e o que eu já queria aprofundar.
Isso só funcionou porque eu tinha assistido à palestra e porque já tinha repertório para conectar as ideias. Sem isso, a IA não teria como fazer essas conexões por mim. E aqui mora outro cuidado importante: sempre pergunto a fonte daquilo que a IA me traz. Vou lá conferir, porque vão existir cada vez mais informações criadas, e apresentar um dado sem saber de onde ele veio é o tipo de risco que pode custar caro — principalmente dentro de uma organização, onde alguém vai perguntar de onde aquilo saiu.
Antes de se posicionar, seja você
Se há um tema que atravessa toda a minha trajetória, é o de posicionamento. E a primeira pergunta que faço a quem quer construir autoridade é: você sabe como as pessoas te enxergam? Reconhecimento não se cria do dia para a noite — eu mesma fui, aos poucos, me tornando reconhecida por um jeito crítico de olhar as coisas, mesmo quando isso incomodava.
A IA pode escrever qualquer coisa, com qualquer linguagem — inclusive uma que não é a sua. Por isso insisto tanto em revisar tudo o que ela produz para mim: se aquele texto não soa como eu, ele não me representa. Ter clareza sobre quem você é, no que acredita e o que defende é a base de qualquer posicionamento verdadeiro. Sem isso, o que se constrói é apenas uma imagem — um castelo de tijolos na areia que desaba com a primeira onda.
Autoconhecimento: a base da inteligência emocional
Todo esse trabalho de posicionamento passa, necessariamente, por autoconhecimento. Entender como eu funciono, como reajo, quais são meus pontos fortes é o que me permite usar minhas habilidades a meu favor — e a favor de quem está do outro lado. Sei, por exemplo, que tenho uma boa capacidade de comunicação e de persuasão. Ter consciência disso é o que me permite melhorar continuamente. Autoconsciência não é um destino: é uma jornada que se renova a cada novo desafio e a cada nova situação.
Adaptabilidade: o ingrediente que só você traz
Costumo perguntar aos meus alunos: ao seguir uma receita, você respeita o passo a passo à risca ou adapta, trazendo um ingrediente seu? Eu, particularmente, não gosto de seguir receita — e isso diz muito sobre a minha relação com a adaptabilidade. Já vivi situações em que um plano cuidadosamente preparado precisou ser totalmente reformulado na hora: uma sala sem o recurso previsto, um tempo de apresentação cortado de uma hora para dez minutos. Nesses momentos, o que sustenta a adaptação não é o material que se preparou, mas o repertório que se carrega.
Comunicação: a habilidade que sustenta todas as outras
Comunicação envolve o que falamos e o que escrevemos — e um dos riscos do uso excessivo da IA é justamente deixarmos de exercitar a fala em favor de textos cada vez mais bem escritos por máquinas. De que adianta um texto impecável se, diante de uma pessoa, não conseguimos discorrer sobre aquele mesmo assunto com a mesma clareza? Organizar as próprias ideias, estruturar um raciocínio, é um exercício — e, como todo exercício, exige prática constante.
Liderança não é cargo
Um outro equívoco recorrente é achar que liderança está ligada a um cargo. Na verdade, liderança é a capacidade de influenciar e inspirar as pessoas ao seu redor, independentemente da posição que se ocupa. Para o profissional de compliance, isso é ainda mais central: sua função é justamente inspirar confiança e influenciar decisões — muitas vezes sem ter autoridade hierárquica sobre quem está do outro lado da mesa.
A inteligência que só os humanos têm
Existe uma inteligência da qual pouco se fala: a intuição. Somos os únicos detentores dessa capacidade e, ao contrário do que parece, ela não é puramente subjetiva: nasce da experiência e do repertório acumulado. A IA consegue entregar um racional de máquina, baseado em casos e padrões, mas o intuitivo dentro de um contexto específico, com pessoas específicas, é território exclusivamente humano. Por isso, ninguém será substituído pela inteligência artificial — a não ser que tenha investido apenas em hard skills.
Para fechar
Falar sobre carreira, soft skills e posicionamento é um tema que carrego com prazer, porque conecta diretamente com a minha própria trajetória — sempre fui movida por essa curiosidade multidisciplinar. Deixo, então, um convite: transforme cada reflexão em ação. Teve um insight? Conecte-o a algo seu. Continue construindo repertório — com leitura, com escrita, com estudo constante — porque é esse repertório que vai te permitir usar a inteligência artificial a seu favor, sem nunca deixar de pensar por conta própria.
A IA está automatizando o compliance operacional. O profissional que parar agora perde espaço.
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