Em sua sétima e maior edição, o Anuário ORIGEM LATAM reforça seu compromisso com a expansão da compreensão do valor da atividade de RIG
Neste mundo de volatilidade acelerada, não existe nada suficientemente certo que não possa ser questionado. Tão pouco existem hoje verdades consolidadas que não precisem, de tempos em tempos, provar o seu valor. Demonstrar porque uma ideia, uma agenda, uma área é importante para o bom funcionamento da vida em sociedade é algo que precisa ser comunicado, explicado e defendido em bases regulares.
A reportagem que abria a edição de 2024 do Anuário Origem apontava para a área de Relações Institucionais e Governamentais como estando “consolidada no ambiente corporativo brasileiro, com sua importância estratégica comprovada por meio de diversas conquistas e avanços obtidos com a participação direta dos profissionais da área”.
Tudo isso segue sendo verdade. As áreas de RIG seguem muito importantes e estratégicas e nenhum conselho de administração ou CEO deve prescindir de um trabalho cuja missão é a de estabelecer relações estratégicas, justas e transparentes com diferentes stakeholders, em especial no setor público. E que ninguém tenha dúvidas: é o setor público quem primordialmente molda o ambiente de negócios de um país. Mesmo as empresas mais poderosas do mundo ao longo da história tiveram, no máximo, “soluços” de poder a ponto de se impor à nação. E mesmo quando conseguiram, isso não costuma acabar bem (para a empresa).
De volta ao ponto. Uma série de movimentações recentes têm reforçado a necessidade permanente da comunidade de profissionais de RIG se comunicar, explicar e reforçar o legítimo papel que a área exerce ao se dedicar à defesa de interesses. Sejam interesses de setores organizados da sociedade, sejam de empresas privadas, ao buscar abrir diálogo com influenciadores, formuladores e decisores de políticas públicas, um bom profissional de lobby, como o leitor e a leitora bem sabem, tem como ferramenta uma série de argumentos técnicos, políticos, sociais, econômicos, investimentos a serem realizados e geração de empregos para contar a sua história e tentar vendê-la a quem está disposto a ouvir. Sim, porque antes de narrá-la é preciso convencer alguém de que ela merece ser escutada, mesmo que por apenas cinco minutos.
Para aproveitar cada momento possível, os profissionais de RIG mais competentes se esmeram em analisar cenários, trazer dados, entender como a história que ele vai contar se conecta com os objetivos do seu interlocutor, o que pode fazer apoiá-lo ou demovê-lo de se posicionar contra o seu projeto…Enfim, é um trabalho intelectual e operacional significativo, que envolve também a construção de relacionamentos de confiança, que podem ser construídos em diferentes tempos em função dos interesses de todas as partes e do ambiente externo naquele momento. Essa construção de relacionamentos, não raro, é feita fora dos prédios públicos. Como parte importante do trabalho de RIG envolve o contato com políticos, e quem é político faz política em tempo integral, você busca de todas as formas possíveis e legais um canal e um momento para ter a sua voz ouvida. Se for durante um almoço, jantar ou evento, por si só não é problema.
Muitas vezes se atribui aos profissionais do lobby a falta de transparência nas relações público e privadas, como se a defesa de interesses – que é o ganha pão desses profissionais – fosse algo marginal, que não pudesse ser feita sob holofotes.
Na verdade, os bons profissionais de RIG demandam, eles mesmos, transparência na sua atividade, como o leitor poderá confirmar em uma das reportagens desta sétima edição do Anuário ORIGEM LATAM. Afinal, para uma atividade que vive muito da reputação (na pessoa física principalmente nesse caso), ter ferramentas que tornem o ambiente de negócios e de discussões mais justo e seguro para todos é, do mesmo modo, uma segurança para eles. Segurança desejada, diga-se.
Mas existem críticas feitas não aos profissionais, mas a atividade per se, que podem e devem ser questionadas.
O palco no qual as contendas inerentes às defesas de interesses precisa ser mais bem balanceado entre os diferentes atores envolvidos naquele jogo? É possível dizer que sim. De fato, nem sempre as forças entram em pé de igualdade. E aqui não se fala de nada que possa escapar não só ao que já é previsto em lei. Mas também do que foge ao razoável. E quem opera na área de forma séria, sabe que não é muito difícil identificar quando uma situação não é razoável usando simplesmente o bom senso.
Agora, seria um retrocesso grande interpretar isso, como alguns têm feito, de que os profissionais de RIG deveriam ter a sua atuação limitada em relação ao que acontece hoje. Deveríamos todos, brigar pelo contrário, para mostrar a importância da atividade de RIG para apoiar a defesa dos interesses legítimos por outros grupos, que podem estar em lado oposto ao seu eventualmente, mas que assim como a sua empresa ou entidade, também tem pleitos que a eles soam corretos.
Assim como as empresas evoluíram, outros stakeholders, como os sindicatos de trabalhadores, que ao menos em tese, ainda tem meios para pautar o debate público e influenciar políticas públicas, podem se valer dos aprendizados dessa evolução para atuar com mais impacto do que conseguem exercer hoje.
Revisitar essas estruturas, ou montá-las do zero, custa dinheiro e não é pouco. Mas nem todo o trabalho se resume a dinheiro. Assim como as empresas aprenderam, esses grupos têm toda a condição para aprender, se fortalecerem e abrirem mais uma frente de atuação legítima para a área de RIG.
A pesquisa do Anuário ORIGEM LATAM em 2025, uma correalização da Consult-Master, da LEC e da Vittore, é um dos marcos desta evolução. Neste ano, a pesquisa teve a participação de 542 lideranças da área de RIG em empresas, entidades setoriais e do terceiro setor, além de consultorias especializadas e escritórios de advocacia com atuação nesta área.
A nova edição da pesquisa traz dados inéditos, bastante críticos para entendermos a realidade da área de RIG sob diferentes perspectivas. Pela primeira vez em sua história, a pesquisa trouxe questões relacionadas à remuneração das lideranças da área. Além da curiosidade natural que questões como essa gera, é válido dizer que ao olhar para o tamanho dos salários e benefícios oferecidos a esses profissionais líderes, lançamos mais luz sobre a importância e a valorização que representam para as empresas que os contratam, anda mais em um mercado que mantém, há tempos, certo equilíbrio entre a oferta e a demanda de profissionais para ocuparem os níveis mais altos da hierarquia da área de RIG nessas instituições.
Os respondentes também fizeram pela primeira vez a sua autodeclaração racial, o que deu forma objetiva aquilo que quem já atua na área conhece.
Feitas as devidas colocações sobre a pesquisa deste ano, é bom dizer que os anos consolidaram algumas verdades sobre o perfil dos participantes da pesquisa, que diz muito sobre o funcionamento da área de RIG, em especial no Brasil. Mas, como não existem certezas absolutas, convém reafirmá-las a partir dos dados que a pesquisa deste ano mostra.
A primeira delas é a de que a prática de RIG, realizada de forma profissional, transparente e organizada, ainda é um território majoritariamente ocupado por grandes empresas, com uma vantagem bastante considerável para as multinacionais.
Na pesquisa deste ano, 84,4% dos respondentes dizem atuar em empresas com receita anual acima de R$ 1 bilhão, cinco pontos percentuais acima do ano passado, sendo que a grande maioria dos respondentes (59,4%) trabalha para companhias com vendas anuais acima dos R$ 5 bilhões, um novo recorte introduzido na pesquisa deste ano. Da mesma forma, em relação ao número de funcionários, 59,7% dos respondentes operam em empresas com mais de 5.000 funcionários. Mais de 70% deles trabalham em companhias de capital aberto, sendo que 27,7% atuam em companhias com capital aberto por aqui, quando se considera também empresas com dupla listagem, no Brasil e no exterior.
Em relação à origem das companhias, as multinacionais seguem à frente na pesquisa, com 58,1% de participação, estável em relação ao percentual obtido no último ano. Dentro desse grupo, as empresas norte-americanas dominam a área, respondendo por quase a metade das companhias estrangeiras e mais de um quarto de toda a base do guia, que tem profissionais de companhias representando 17 países diferentes das Américas, Europa e Ásia.
Em relação ao tamanho das equipes da área de RIG nas empresas, neste ano a pesquisa aponta para uma queda expressiva, de quase 10 pontos percentuais, nos respondentes que dizem operar em companhias nos quais os departamentos de RIG tem cinco pessoas ou mais dedicadas. Da mesma forma, viu-se um aumento expressivo de equipes de uma só pessoa, atingindo um patamar que há tempos não se via nesta pesquisa.
Mas é preciso um pouco de cuidado para não fazer uma leitura simplista demais da situação, como uma relação de causa e efeito: se as equipes estão diminuindo, a área está em crise. A realidade é um pouco mais complexa do que isso. Nas próprias reportagens desta publicação, o leitor irá se deparar com dados que vão na direção contrária, a de que a área segue firme nos organogramas, com muito trabalho e que começa, inclusive, a recompor o orçamento que andou meio de lado nos últimos anos. Da mesma forma, o nível de contratações de novos profissionais pelas lideranças de RIG segue em patamar muito próximo ao seu histórico. Em resumo, estamos longe de uma situação de alerta para os profissionais.
Entretanto, os departamentos de RIG se inserem dentro do contexto de cada empresa, e um olhar mais amplo vai mostrar uma situação menos confortável em várias das principais economias do mundo. Não são poucas as grandes companhias globais que têm anunciado, com diferentes argumentos, cortes substanciais na sua força de trabalho em todo o mundo, inclusive empresas que pelo sucesso recente, trouxeram muitas pessoas para a equipe. Diante disso, a área de RIG, como qualquer outra área de empresa, pode não passar ilesa a esses facões.
Da mesma forma, existem outros elementos, também presentes em reportagens neste Anuário ORIGEM LATAM que ajudam a entender a movimentação no tamanho das equipes como algo menos preocupante do ponto de vista institucional e mesmo da prática da área de RIG.
Primeiro, as consultorias que participaram da pesquisa apontaram para um forte crescimento na demanda por serviços de RIG desde o final do ano passado. Com a maior complexidade das pautas envolvendo a área, inclusive as questões geopolíticas, muito do trabalho que demandaria um profissional muito especializado foi passado para especialistas externos. E, inegavelmente, as próprias consultorias de RIG cresceram em estrutura e sofisticaram a sua oferta de produtos e serviços para atender de forma mais assertiva as lideranças de RIG nas empresas.
O segundo elemento é o próprio avanço da inteligência artificial, que vem ganhando mais espaço no trabalho das áreas de RIG. Os ganhos de produtividade e eficiência gerados pela IA, em um mundo ideal, serviriam para nos livrar de boa parte do trabalho que pode ser automatizado para deixarmo-nos com tempo livre para olhar para aspectos mais estratégicos do trabalho, ou mesmo para nos permitir jornadas menos extenuantes.
Na prática, a IA está sendo usada só para aumentar a produtividade, no sentido de fazer mais com menos (ou fazer muito mais com muito menos). Essa é uma realidade imposta, e em algum momento governos, sociedades e empresas precisarão sentar-se à mesa para estabelecer consensos para um arranjo sobre esse tema, que hoje só gera disputa. Nessa hora, certamente veremos a importância da área de RIG operando a partir de diferentes stakeholders para ajudar a construir essas pontes rumo a uma agenda de convergência.
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