A inteligência artificial e outras ferramentas digitais estão aumentando a eficiência dos criminosos no cometimento de crimes transnacionais. Um problema que já é enorme quando se considera que somente em 2025, as perdas globais relacionadas a fraudes financeiras foram estimadas em US$ 442 bilhões.
A segunda edição da Avaliação Global de Ameaças de Fraude Financeira, documento produzido pela INTERPOL, alerta que o aumento da colaboração global entre os criminosos converteu as fraudes financeiras, de uma ameaça lateral para o centro de um modelo de policriminalidade, onde se cruza com o crime organizado, o tráfico de pessoas e os crimes cibernéticos.
A revolução digital teve um impacto particular na escala e na natureza das fraudes financeiras, tornando esse um dos mais graves tipos de crimes enfrentados pelos países membros da INTERPOL atualmente. A crescente sofisticação tecnológica dos sindicatos do crime transnacional permite que eles ocultem a origem dos fundos, contornando efetivamente a supervisão regulatória estabelecida e complicando os esforços internacionais de recuperação de ativos.
Em particular, a proliferação da IA generativa tem facilitado a vida dos criminosos, que estão utilizando tecnologia deepfake e modelos automatizados para executar engenharia social hiper-realista e fraudes de identidade sintética em larga escala. Mercados da Dark Web oferecem aplicativos que podem clonar vozes e rostos a partir de meros segundos de amostras genuínas de áudio ou vídeo, permitindo que criminosos se passem por celebridades ou associados de vítimas em potencial.
De acordo com o relatório, as fraudes aprimoradas com o uso da IA são 4,5 vezes mais lucrativas do que os métodos tradicionais. A “IA generativa” pode planejar e executar campanhas de fraude de forma autônoma, do início ao fim. A Interpol relatou um aumento global nesses esquemas de fraude aprimorados por IA, notadamente extorsão sexual, interligada a golpes de investimento, bem como fraudes de personificação, incluindo falsos sequestros para resgate.
Esses avanços tornaram os métodos tradicionais de detecção e as mensagens de prevenção amplamente ineficazes, exigindo uma mudança para mecanismos de defesa adaptativos, orientados por IA.
As redes criminosas estão colaborando cada vez mais com grupos especializados em lavagem de dinheiro e compartilhando conhecimento e tecnologia para expandir suas operações globalmente, adaptando seus modelos de negócios ilícitos para otimizar a eficiência. Para a Interpol, esses grupos criminosos são altamente organizados, qualificados e ágeis. Impulsionados pela inteligência artificial, ferramentas digitais de baixo custo e crescente colaboração criminosa global, estamos testemunhando a industrialização da fraude. É vital lembrar que o custo do crime financeiro não se resume a dinheiro – são as economias de uma vida inteira, a dignidade das pessoas e, no pior dos casos, suas vidas”, afirmou o Secretário-Geral da INTERPOL, o brasileiro Valdecy Urquiza.
A Interpol avalia o risco global geral relacionado à fraude financeira como alto e prevê que a escala dos crimes aumentará significativamente nos próximos três a cinco anos, principalmente devido à maior disponibilidade da tecnologia de IA e às baixas barreiras de entrada. Além disso, o fenômeno dos centros de fraude, antes de alcance regional, se tornaram uma ameaça global. Esses centros envolvem centenas de milhares de pessoas, muitas das quais são forçadas a cometer fraudes online. Até o momento, vítimas de quase 80 países foram traficadas para centros de fraude online, sem que nenhum continente tenha ficado imune.
Entre os pontos positivos, o documento da Interpol aponta que as autoridades policiais estão colaborando de forma mais eficaz. Desde 2024, o número de Notificações e Divulgações da polícia internacional relacionadas a fraudes aumentou 54%, a maioria emitida por países membros europeus. No mesmo período, a Interpol apoiou países membros em mais de 1500 casos de fraude transnacional, com perdas de ativos avaliadas em US$ 1,1 bilhão (o que é uma fração mínima diante do montante perdido para fraudes). Para a Interpol, essa mudança exige níveis sem precedentes de cooperação transfronteiriça entre as forças policiais e o compartilhamento de informações para interromper o fluxo de capital ilícito.
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