Enquanto multas, sanções e uma ação mais incisiva do regulador não vêm, as empresas vão acomodando suas áreas de Privacidade e Proteção de Dados em outros departamentos
A tônica das análises dos dados sobre a área de Privacidade e Proteção de Dados (P&PD) nas empresas tem sido a mesma nos últimos anos: ela ainda não se consolidou como um departamento independente na maioria das companhias. Nada parece indicar uma mudança nessa dinâmica no curto prazo. Pelo contrário, a tendência aponta para o acoplamento dos temas de P&PD a outros departamentos, particularmente Compliance e Jurídico (muitas vezes, já sob um único guarda-chuva).
Tem-se debatido que essa dinâmica só mudará drasticamente com o aumento das sanções ou com um enforcement regulatório local suficientemente forte, capaz de fazer as empresas no Brasil olharem o tema sob uma nova ótica de risco. O mercado ainda acredita na possibilidade disso ocorrer, mas hoje, a visão mais estratégica para a gestão e proteção de dados pessoais está mais restrita a organizações onde o volume ou a sensibilidade dos dados as tornam vulneráveis. É o caso de companhias da área da saúde, instituições financeiras, de telefonia móvel ou grandes plataformas de varejo digital. Contudo, essa ainda não é a regra. Dessa forma, apenas 27,2% dos líderes de P&PD dedicam-se exclusivamente aos temas da área, um aumento marginal em relação aos 25,5% registrados no ano anterior.
Por ser um processo relativamente recente que consumiu muita atenção regulatória (devido à adequação à LGPD), o mercado ainda passa por ajustes e acomodações. Em relação ao quadro de pessoal, o percentual de respondentes que atua como a única pessoa dedicada a P&PD na companhia avançou para 23,7%, sete pontos percentuais a mais do que em 2024. Em contrapartida, as equipes compostas por quatro ou mais profissionais caíram oito pontos percentuais, para 30,9%. Apenas 12,9% dos respondentes de empresas afirmaram fazer uso do modelo DPO as a service.
Apesar do encolhimento das equipes, a situação dos orçamentos parece ligeiramente menos comprimida em 2025 do que no ano anterior, com um avanço de 4,4 pontos percentuais entre aqueles que dispõem de mais de R$ 1 milhão ao ano para tocar as atividades da área. No entanto, quando questionados sobre a variação do budget deste ano em comparação com o anterior, quase dois terços dos respondentes (63,6%) relataram estabilidade, ante 52,8% em 2024. Além disso, viu-se uma queda considerável, de 20,2% para 11,2% em 2025, entre os que disseram ter visto o seu orçamento de P&PD aumentar.
Em termos de organização e governança, 72,4% dos respondentes classificam suas empresas, majoritariamente, como “controladores de dados”. O instituto do Comitê de P&PD está presente em 74,1% das empresas, quase seis pontos percentuais a menos do que em 2024. Contudo, a liderança dessa instância pelo DPO ou Encarregado de Proteção de Dados saltou de 50% para 57%, ao passo que a liderança desse Comitê pela área de Compliance caiu de 24,2% para 17,4% em 2025, mesmo percentual de casos nos quais a liderança é exercida pelo departamento jurídico. 58% dos respondentes julgam que suas empresas já concluíram a implementação do programa de Compliance em proteção de dados há mais de dois anos, mas uma parcela de 12,2% ainda acredita que o processo não foi finalizado.
Na comparação com 2024, o status de realização de alguns procedimentos críticos avançou consideravelmente neste ano. É o caso da preparação do Relatório de Impacto (RIPD), realizado por 92,7% (ante 86,2% no ano passado); dos processos de Privacy by Design antes do lançamento de novos produtos/serviços (84,5% contra 77,1% em 2024); e da Avaliação de Legítimo Interesse (LIS na sigla em inglês), que com 88,9% de citações, saltou 7,4 pontos percentuais. A única queda percentual relativa foi a da Política de Retenção de Dados, realizada por 74,8% dos respondentes, contra 80,7% no ano anterior.
Em relação às bases legais mais utilizadas, o uso da obrigação legal avançou consideravelmente, atingindo 84,7% de menções. A execução de contratos e o exercício regular de direito também cresceram em relação a 2024, marcando 63,1% e 32,4%, respectivamente. Já a tese do legítimo interesse recuou ligeiramente, de 62% para 61,3%. Entre as bases que foram menos citadas, o uso do consentimento caiu 5,5 pontos percentuais, sendo mencionado por 53,2% dos respondentes.
Entre os que precisam tratar dados pessoais sensíveis, o cumprimento de obrigação legal atinge 83,5% de citações, seguida pela tese do consentimento, apontada por 75,7%. Daí para baixo, todas as bases marcam menos de 30%, com a mais citada delas, a tutela da saúde, atingindo 29%. Para fechar, ao avaliarem o grau de maturidade de P&PD em suas empresas, 86,9% dos líderes atribuíram nota acima de sete, em uma escala de 0 a 10. A média de maturidade da área atribuída pelas próprias lideranças é de 7,8.
Para fechar, quando questionados sobre como avaliam o grau de maturidade da área de privacidade e proteção de dados da sua própria empresa, 86,9% deles atribuíram nota de maturidade acima de sete, numa escala que varia de 0 a 10. Na média, o grau de maturidade da área atribuída pelas próprias lideranças de P&PD nas empresas é de 7,8.
Perfil profissional e remuneração
Na média, os profissionais que responderam à pesquisa de Data Privacy do Compliance ON TOP 2025, estão atuando diretamente com o tema desde o início de 2019, somando seis anos de experiência na área, e 67,6% deles possuem alguma certificação profissional, com destaque para a EXIM DPO, emitida pela IAPP.
Do ponto de vista dos salários pagos às lideranças da área nas empresas, quando se considera apenas os profissionais que responderam exclusivamente a pesquisa de P&PD (excluindo os profissionais que também atuam com o tema, mas já haviam participado da pesquisa de profissionais de Compliance), 31% dos respondentes têm rendimentos mensais entre R$ 15 mil e R$ 24,9 mil. 26,7% dizem receber entre R$ 25 mil e R$ 34,9 mil, mesmo percentual dos que apontam holerites de até R$ 14,9 mil. Neste mesmo recorte, são 15,6% os profissionais na liderança de P&PD nas empresas que dizem receber mais de R$ 35 mil ao mês.
Ainda considerando apenas quem respondeu à pesquisa de P&PD e não a de Compliance, o percentual de profissionais graduados em Direito é superior àquele visto na área de Compliance, atingindo 84% dos participantes, enquanto 14% são graduados em Administração e 8% em Tecnologia da Informação (cada respondente poderia indicar até duas graduações). As mulheres são maioria também na liderança da área, com 60% de participação na base entre os que só participaram da pesquisa de P&PD. Já em termos de diversidade racial, o quadro não traz grandes diferenças do que foi visto nas pesquisas de Compliance: pessoas autodeclaradas brancas somam 81,4% da base; as que se identificam como negras, 8,3%; as amarelas, 5,2%; e os que não quiseram se identificar, 5,1%.
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