10 Dicas para a Gamificação dos Treinamentos de Compliance

As ações de comunicação e capacitação são essenciais para o efetivo funcionamento do programa de integridade. Além de divulgar interna e externamente as políticas e procedimentos que devem ser observados, promovem o debate sobre o tema, fortalecendo a cultura de integridade na organização. 

Para que as ações de disseminação da cultura de integridade alcancem seus objetivos, em um cenário de crescente fluxo de informações e competição pela atenção dos colaboradores, é necessário planejamento, adoção de diferentes estratégias e constante avaliação dos resultados. 

Os profissionais de compliance têm buscado formas mais dinâmicas para sensibilizar e capacitar o corpo funcional quanto ao compliance, especialmente em relação ao programa de integridade, em complemento às práticas tradicionais de aprendizagem.

Uma das estratégias que pode ser adotada é a gamificação. Ganhar pontos, fugir de armadilhas, negociar com oponentes e passar de fases são situações comuns em jogos, mas que também têm ganhado força no ambiente corporativo, conforme tratado em recente reportagem do Valor Econômico [“Empresas investem em jogos para engajar, treinar e recrutar”]. As ferramentas são das mais variadas e incluem desde jogos de tabuleiro até desafios como tentar escapar de uma sala e experiências em realidade virtual.

A proposta é expor os participantes a desafios reais e convidá-los a tomar decisões para resolverem esses conflitos, oferecendo um aprendizado prático e, ao mesmo tempo, divertido, que quebre o paradigma de que treinamentos sobre compliance são maçantes e não aplicáveis diretamente à realidade.

“Excelente forma de tratar um tema importante e pesado de forma leve e com grande poder de fixação dos pontos chaves, além de estimular a participação!!!!“ [participante de jogo do BNDES – 2018]

Nas últimas três Semanas de Ética e Integridade (2018 a 2020), evento anualmente organizado pelo BNDES em comemoração ao Dia Internacional Contra a Corrupção (09/dezembro), a programação contou com as seguintes atividades:

  • 2018 – escape game (jogo de escape) presencial, em uma sala ambientada, cujo objetivo era impedir um ataque terrorista, resolvendo enigmas e decifrando códigos em até 45 minutos. 
  • 2019 – caça-palavras sobre ética e integridade, em ambiente de realidade virtual. As palavras tinham que ser identificadas em até 3 minutos e, à medida em que o tempo ia se esgotando, o chão sumia sob os pés do participante.
  • 2020 – escape game online, semelhante à atividade conduzida em 2018, mas em ambientes do BNDES digitalizados em 360°, cujo objetivo era viabilizar uma captação de recursos no contexto da emergente agenda ESG (environment, social and governance) em até 60 minutos.

No total, 495 colaboradores participaram desses jogos e foram convidados a avaliar a experiência, tendo sido recebidas 257 respostas, incluindo 81 manifestações qualitativas opcionais. 

Não podemos esquecer que a gamificação deve ser tratada no contexto da aprendizagem organizacional. Neste sentido, é importante destacar que 94% dos respondentes avaliaram que a experiência propiciou incremento no conhecimento sobre o tema, ou ao menos a sua reciclagem, e que aproximadamente 90% avaliaram como ‘excelente’ ou ‘muito bom’ a organização do evento e sua experiência em termos gerais. 

Os participantes também ressaltaram o caráter ‘inovador’, ‘divertido’, ‘moderno’, ‘envolvente’, ‘motivacional’ e ‘lúdico’ da experiência.

“Após o game, no almoço, os integrantes da equipe discutiram uma série de pontos sobre o código de ética. Acho que a ‘brincadeira’ surtiu efeito” [participante de jogo do BNDES – 2018] 

Com base nesses três anos, reunimos abaixo 10 dicas para quem pretende se aventurar por essa técnica:

Fase 1 – planejamento do jogo

  1. A dinâmica do jogo (enredo / enigmas) deve guardar relação com as medidas de integridade da organização e retratar os conceitos e informações mais relevantes que se espera que os participantes retenham após a experiência. No escape game presencial, por exemplo, incluímos enigmas extraídos de nosso Código de Ética, enquanto que para o caça-palavras foram selecionados conceitos e medidas de integridade (ex: brindes, conflito de interesse), sobre os quais era apresentada uma breve explicação assim que identificados. 
  2. Deve-se avaliar se o jogo será produzido pela própria instituição ou contratado. Optamos pela segunda opção e nossa experiência mostra que não é trivial encontrar empresas que já tenham gamificado a temática de compliance. Assim, por conta da dica anterior, é necessário alinhamento com o prestador de serviços especialmente na fase de definição do enredo / enigmas. 
  3. A organização dos jogos em equipes, ao invés do trabalho individual, permite aproveitar a experiência para estimular outras habilidades relevantes às organizações, como a liderança e a cooperação. 
  4. A duração dos jogos precisa buscar o equilíbrio entre o tempo necessário para o adequado desenvolvimento da dinâmica e a transmissão de conhecimento, sem que seja excessiva a ponto de desmotivar ou inviabilizar a participação. A duração do jogo também deve considerar a tecnologia que está sendo utilizada.
  5. O trabalho remoto impõe desafios adicionais em termos de opções de jogos e de engajamento dos colaboradores, o que também deve ser levando em conta para a definição da dinâmica, mas há opções interessantes no mercado. No nosso exemplo, optamos pelo escape game online em 2020 dentre o rol de possibilidades identificadas.
  6. Caso as vagas para a gamificação sejam limitadas e demandem a formação de equipes, devem ser previstas medidas de controle de inscrições para evitar vagas ociosas, o que pode incluir regras sobre antecedência de inscrição, cancelamentos, alterações e tamanho mínimo das equipes. Além disso, pode ser necessário o estabelecimento de regras para a participação de estagiários ou prestadores de serviço, por exemplo. 

Fase 2 – execução do jogo

  1. A realização do jogo associada a um evento (no nosso caso, a Semana de Ética e Integridade), e não isoladamente, pode contribuir para amplificar o alcance da divulgação das demais atividades do próprio evento, dado que a gamificação contribui para colocar o tema em evidência (“despertar a atenção”).  
  2. É importante criar a estrutura para coordenar a realização do game, que cuidará de aspectos como esclarecimento de eventuais dúvidas, acompanhamento das inscrições (caso sejam necessárias), registro das participações e orientação sobre o local (físico ou virtual) em que a experiência irá ocorrer.
  3. A criação de ranking das equipes, atualizado diariamente, pode contribuir para ampliar o engajamento e a divulgação da atividade.

Fase 3 – finalização do jogo 

  1. Os participantes devem ser estimulados a avaliar a experiência, especialmente em termos dos conhecimentos adquiridos, permitindo verificar se os objetivos da iniciativa foram alcançados. 

Estas dicas contribuirão para o sucesso da atividade gamificada e, consequentemente, para a efetiva disseminação da cultura de compliance na sua organização. 

 


Este artigo foi escrito por membros do departamento de compliance do BNDES: Felipe Zani (administrador), Amanda Santos (administradora), Fabiana Lima (Chefe de Departamento) e
Vanessa Rafael (Gerente)

As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente o posicionamento do BNDES, sendo de exclusiva responsabilidade dos autores. 

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