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Carreira em RIG: O Mercado Busca Profissionais Generalistas ou Especialistas?

Carreira em RIG O Mercado Busca Profissionais Generalistas ou Especialistas

A crescente complexidade do ambiente político e regulatório, e mesmo as transformações do ambiente de negócios no Brasil e no mundo, vêm impondo uma nova dinâmica às carreiras nos departamentos de RIG.

Se até poucos anos atrás, o foco do profissional de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) residia em atuar nos limites do ambiente político, legislativo e regulatório mais estreitos e diretamente afeitos ao negócio da organização  para a qual trabalhava, o escopo se expandiu e segue se ampliando para incluir discussões transversais, que não raro inflamam o debate público, ao mesmo tempo em que são agendas altamente técnicas como ESG, Inteligência Artificial, proteção de dados e geopolítica, que demandam um grau de sofisticação e expertises muito específicas.

Essa transformação, identificada por líderes da área na pesquisa para o Anuário ORIGEM LATAM 2025, traz à tona uma questão importante na formação e qualificação desses profissionais: o cenário que se vislumbra para o futuro próximo vai demandar profissionais de perfil ainda mais generalista, com um nível de conhecimento sobre diversos temas capaz de conectar múltiplas frentes; ou, na medida em que as agendas se tornam mais complexas e passam a exigir domínio de conhecimentos muito mais específicos, o mercado vai demandar um avanço na especialização, com talentos dedicados a campos de atuação, seja do ponto de vista setorial seja em relação a prática de atuação, cada vez mais específicos dentro da área de RIG?

É o tipo de questão que não oferece uma resposta única, já que são muitas as variáveis envolvidas: tamanho da equipe, setor de atuação, cultura corporativa, visão da liderança da empresa sobre o papel de RIG, orçamento para contratar consultorias…Tudo isso influencia na decisão, que é estratégica, sobre a escolha do perfil (ou dos perfis) mais adequados para trabalhar na área. “Tem demanda para tudo. Lido com empresas nas quais a escolha do profissional que vai ocupar a cadeira de RIG não leva em conta o seu setor de origem, mas sim experiência, senioridade e eventualmente alguma atuação prévia em agendas específicas; e também sou demandado por clientes que só olham para profissionais que já atuam no mesmo setor”, conta Raul Cury Neto, sócio-gerente da VITTORE, empresa de executive search especializada no mercado de RIG e correalizadora do Anuário ORIGEM.

Em empresas com áreas de RIG com menos “cabeças”, o perfil generalista tende a ser mais comum para dar conta das diferentes demandas. Já em grandes corporações, a criação de estruturas híbridas se torna não apenas possível, mas essencial, já que a especialização é importante para dar profundidade e garantir à empresa a autoridade para tratar da discussão e agendas as quais pretende influenciar.

O próprio momento da empresa ou do país pode determinar qual a necessidade mais premente para o negócio, o que por sua vez molda o perfil da área para aquele momento. Foi o que se viu, por exemplo, durante as privatizações dos anos 1990, quando as empresas compradoras buscaram  claramente  profissionais com muito conhecimento regulatório e acesso facilitado aos decisores de políticas públicas.

O que é certo é que são perfis complementares, não excludentes. De um lado, a visão holística do profissional generalista é vista como essencial para pensar o RIG de forma mais estratégica dentro do contexto mais amplo do negócio. Agora, é inegável também que em muitos casos você só conseguirá uma atuação efetiva com a ação de um especialista, capaz de esmiuçar os meandros da sua área de expertise e trazendo à empresa, inclusive, a legitimidade e a liderança em relação àquela agenda. “É muito comum que nos processos de contratação para clientes de setores mais regulados a empresa já peça que eu faça a abordagem a profissionais que venham de setores igualmente regulados, ou que tenham experiência em determinadas agendas próprias desses setores regulados, caso do mercado farmacêutico”, segue Raul.

Conectando pontas para gerar valor

Uma parcela significativa das lideranças da área vê nos profissionais de RIG alguém que é, por natureza, um generalista. Isso porque a função exige uma visão holística, capaz de traduzir toda a amplitude e complexidade do cenário externo para a estratégia de negócio e, ao mesmo tempo, articular as demandas internas junto aos stakeholders externos. O leitor do Anuário ORIGEM já conferiu, em vários textos publicados aqui e nas edições anteriores da publicação, que o profissional de RIG é alguém capaz de estabelecer pontes e construir relações, um “conector”, que precisa ter a capacidade e a disponibilidade para entender as diferentes demandas e interesses em jogo, sabendo quais ferramentas e estratégias usar em cada situação para buscar os pontos de convergência e, de alguma forma, ir acomodando as divergências. Fazendo uma analogia um tanto clichê (mas válida), é como um maestro que precisa saber o papel de cada instrumento na orquestra, mesmo sem saber como tocá-los.

A capacidade de transitar entre diferentes agendas e setores da economia é apontada como uma das grandes vantagens da atividade. Na visão de quem enxerga a preponderância de um perfil mais generalista para os profissionais de RIG, a especialização excessiva poderia limitar essa flexibilidade e a capacidade de um olhar mais ampliado. Em um ambiente de alta velocidade, a adaptabilidade do generalista é crucial. “A atividade de RIG  está se tornando mais complexa e abrangente, exigindo uma ampla gama de habilidades. No entanto, acredito que o futuro de RIG valorizará mais os profissionais generalistas”, acredita Rafael Luchini, diretor de Relações Institucionais e Governamentais do Grupo Ultra.

Embora a tentação seja buscar uma especialização cada vez maior para dar conta de cada prática ou setor econômico, a diretora de Relações Governamentais da GM, Carla Pachu, acredita que o caminho mais promissor é formar profissionais mais generalistas. Mas é preciso deixar claro: ser generalista aqui não quer dizer que o profissional deva ter um conhecimento superficial sobre tudo. Pelo contrário, quem se quer como generalista precisa dominar um conjunto de habilidades básicas e inegociáveis, muito bem alicerçado em competências comportamentais, as soft skills, inclusive para conseguir estabelecer as pontes na hora em que precisar recorrer a um colega especialista de um determinado assunto, chave para o sucesso da empresa naquele momento. “A capacidade de liderar especialistas e ter um pensamento estratégico deve estar dentro do escopo do profissional generalista”, reforça o diretor do Grupo Ultra. Para Carla, “ser generalista exige um conjunto de habilidades como pensamento crítico, comunicação clara e assertiva, além de integridade, resiliência e inteligência emocional”.

Ainda na linha em prol dos generalistas, Daniela Coutinho, diretora de Compliance da CPFL, lembra que a profissão de RIG permite a flexibilidade de atuar em qualquer setor, o que seria uma das grandes vantagens dessa atividade desempenhada por profissionais de diferentes formações. Da mesma forma, ela enxerga na especialização como RIG de um setor muito específico, vai na direção contrária da natureza da atividade. “Um bom profissional de RIG, com capacidade analítica, um bom network e conhecimento do ambiente político, tem condições de atuar em vários setores”, aponta a diretora.

Autoridade e credibilidade

Em contrapartida, outro grupo de profissionais, menor, mas ainda expressivo, vê no avanço da  especialização para os profissionais de RIG um caminho sem volta. A crescente sofisticação das discussões regulatórias e a tecnicidade de temas emergentes, muitas vezes disruptivos e sem grandes referências para seguir, exige um nível de profundidade que um generalista, por mais competente que seja, dificilmente consegue alcançar em todas as frentes necessárias.  “A prática de RIG não é um trabalho generalista”, afirma o head de Government and Public Affairs para América Latina da Philips, Alexandre de Paula, para quem, apesar da necessidade de entender sobre diversas frentes de negócios e de deter conhecimento variado, as habilidades específicas que a área de RIG exige precisarão, cada vez mais, estar presentes na vida dos profissionais da área.

Para debater regulação ambiental, políticas tributárias complexas ou o impacto da inteligência artificial, é preciso ter expertise técnica para subsidiar as discussões e construir argumentos sólidos. A especialização, nesse contexto, não é vista como uma limitação, mas como um ganho de autoridade no assunto e eficácia. Maria Anália Ferreira Costa, gerente de Relações Institucionais da Vale para os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, está entre as que defendem essa perspectiva. “Vejo a relevância do foco e da necessidade de especialização com expertise técnica para subsidiar as discussões políticas complexas e integradas”, diz a executiva da mineradora brasileira.

Sob essa ótica, a prática de RIG se torna uma função de alta especialização, onde o conhecimento aprofundado é a principal ferramenta de influência. “Acredito que hoje é possível observar profissionais cada vez mais especializados e focados em áreas específicas. Isso contribui sobremaneira para uma atuação mais estratégica e técnica, o que fortalece a interlocução com os diferentes stakeholders“, aponta Alessandra Ferraz Bacelar de Oliveira, head de Relações Institucionais e Governamentais da Volkswagen.

Orquestrando talentos em um novo cenário

A escolha do perfil do profissional para atuar na área de RIG é, muitas vezes, fruto de uma questão conjuntural, seja por uma limitação de tamanho de equipe, que obriga a empresa a ter de escolher entre um ou outro perfil, seja por uma necessidade específica do setor no qual a empresa opera, ou pelo momento da empresa em relação a sua agenda de defesa de interesses.

A maioria dos líderes consultados enxerga (ou, ao menos, deseja) a convergência para um modelo de departamento de RIG que busca orquestrar esses dois perfis em equipes coesas, com a formação de times multidisciplinares, onde generalistas e especialistas coexistem e se complementam.

Nesse arranjo, o líder de RIG deve pensar estrategicamente, definir as prioridades e fazer a ponte com a alta gestão, ao mesmo tempo em que coordena os diferentes talentos da sua equipe para usar as competências mais adequadas a cada demanda, sempre em torno de objetivos comuns da organização. “Generalista, um líder de RIG precisa ser capaz de entender o quadro de sua organização e traduzir isso em termo de estratégia para o métier, com uma clara capacidade de estabelecer prioridades e de pilotar essa jornada 360º com a obrigação de apoiar-se em experts de áreas como Tax, Regulatório e Sustentabilidade”, acredita Patrick Sabatier, diretor de Assuntos Corporativos da L’Oréal.

Nesse modelo, abaixo dessa liderança, a estrutura se ramifica em especialistas dedicados a temas-chave, com a construção de times complementares, nos quais líderes com visão holística e estratégica conectam a agenda institucional aos objetivos de negócio, enquanto os especialistas aprofundam a inteligência técnica e sustentam a legitimidade da atuação diante de interlocutores altamente qualificados. “Mais do que optar entre generalismo ou especialização, o futuro do RIG passa por saber orquestrar talentos diversos em ecossistemas de influência cada vez mais complexos”, reforça Suelma Rosa, vice-presidente de Assuntos Corporativos para México & LATAM da PepsiCo.

Agora, mesmo no cenário mais idealizado pelos profissionais em relação ao futuro das carreiras na área de RIG, Raul, da VITTORE, não acredita que exista muito espaço no mercado para um modelo de carreiras em Y, no qual o desenvolvimento de profissionais de gestão da área e de especialistas, acontece em linhas paralelas. Para o headhunter, hoje, quando precisam de alguém muito especialista em determinado tema, as empresas têm recorrido às consultorias. “O que acontece muito no começo das carreiras, são profissionais que vem de uma especialização, de uma experiência em um único tema, só com estados e municípios, por exemplo. Se esse profissional quiser avançar dentro da empresa, em algum momento ele vai ter que se desenvolver para suprimir esse gap, ou ele não vai conseguir avançar no organograma”, alerta Raul.

Com áreas de RIG, via de regras, ainda enxutas frente às demandas do mundo corporativo, o sócio-gerente da VITTORE enxerga como imprescindível a necessidade de profissionais com uma visão holística e atuação generalista. “No passado, em empresas muito grandes, você via essas carreiras em Y; ainda vemos em algumas delas, profissionais muito especializados em algumas práticas, mas para evoluir na carreira, eu acredito que eles também vão ter que se tornar mais generalistas”, emenda o headhunter. Diante de todas essas possibilidade (e limitações), a definição do professor e coordenador do MBA em Relações Governamentais da FGV, Rodrigo Navarro, que também é CEO da Associação Nacional da Indústria de Pneus (ANIP) e um dos idealizadores do ORIGEM, traduz muito bem a situação: “você pode definir a essência do profissional de RIG como um especialista em generalidades ou um generalista em especialidades”.


Artigo publicado originalmente no Anuário ORIGEM 2025
As opiniões contidas nesta publicação são de responsabilidade exclusiva dos Autores, não representando necessariamente a opinião da LEC ou de seus sócios.
Imagem: Canva
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