O avanço das mulheres na área de Relações Institucionais e Governamentais

A participação feminina na área de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) ainda é baixa. Mas isso deve mudar com o avanço da diversidade nas companhias e o maior interesse dos jovens pela área.

Os resultados obtidos pela pesquisa conduzida pelo Anuário ORIGEM, com centenas de líderes da área de RIG em empresas, consultorias, escritórios de advocacia e associações empresariais aponta que as mulheres ainda são sub-representadas na área, em especial nas posições de liderança.

Dentro das empresas, as gestoras e líderes de RIG representam menos de um terço dos participantes, percentual que não muda muito dentro das consultorias e escritórios. Nas associações, o cenário é ainda mais difícil, com menos de 20% de mulheres participantes.

Em muitos aspectos, o número reflete a realidade atual de gêneros no ambiente político brasileiro. Embora a participação feminina tenha crescido desde o início da década, ela ainda é baixa, não chegando a 15% nas assembleias.

O estabelecimento de cotas mínimas para mulheres candidatas ainda não se provou uma alternativa que será capaz de, por si só, aumentar essa participação.

Mas a baixa representatividade não se dá apenas no Parlamento. A própria burocracia estatal ainda é um ambiente majoritariamente composto por homens.

Considerando que um dos trabalhos básicos de qualquer profissional de RIG é a interlocução governamental, não é difícil entender o que isso gerou historicamente em termos de atração de talentos femininos para a área.

“Quando você vai para esse ambiente de governo, é massacrante a presença masculina em relação ao número de mulheres e na função você vai ter que lidar com esse espelho.

Esse viés de muito mais homens na posição refletia um pouco isso. Na área Jurídica você tem um equilíbrio (de gêneros) muito maior”, conta Ana Costa, vice-presidente Jurídica e de Relações Governamentais da Avon. Na mesma linha, a gerente de Relações Governamentais da companhia de bens de consumo P&G, Daniela Rios, concorda que essa falta de representatividade proporcional ao número de mulheres na população é que gera desconforto e não o fato de ela ter que se relacionar com público majoritariamente masculino.

A executiva da P&G lembra que quando mais jovem passou por situações desagradáveis por ser mulher. “O que posso dizer é que nessas situações desagradáveis sempre me posicionei, seja no relacionamento com setor público ou privado, de forma calma, objetiva e educada, dizendo que o comportamento era inadequado ou inaceitável. Prefiro pensar que a cada pedido de desculpas, consegui ajudar uma pessoa a refletir e ter uma mente mais livre de preconceitos.

Se não refletiu, pelo menos com o desconforto fiz com que tenha mais cuidado nas próximas relações. Isso já é avanço”, reforça Daniela.

Atuando na área de RIG desde os 23 anos, Michelle Shayo, diretora de Assuntos Governamentais e Comunicação
da mineradora Alcoa, vai além. A executiva revela ter tido de enfrentar o preconceito todos os dias da sua vida. “Desde a forma que as pessoas te escutam, o fato de ter que se posicionar quando um homem faz gracinhas, de aguentar comentários inapropriados, do tipo ‘Peraí que a menina vai falar’, como se fosse algo “fofinho”.

Comigo acontece menos porque eu criei uma postura dura, uma postura muito mais forte”, acredita.

Especificamente no ambiente das Relações Governamentais, o ambiente ainda é inegavelmente mais masculino, e embora a diferença ainda seja grande, o cenário começa a mudar, como de fato já vem mudando em diferentes áreas. Danielle, da P&G, cita uma pesquisa realizada pela consultoria Kantar, que aponta que no ano 2000, 24% das mulheres brasileiras trabalhavam fora. No ano passado, esse percentual batia nos 40%. Isso sem falar que a maioria dos lares brasileiros hoje, é chefiada por mulheres, um fenômeno que acomete principalmente nas classes menos favorecidas do País.

AMPLITUDE QUE FAVORECE

Ao contrário de outras áreas, que têm um desenho mais ou menos padrão de atuação, a área de RIG está longe de ter um formato único, com suas atribuições podendo mudar radicalmente de uma empresa para outra. O que não muda é o fato de que o escopo de atuação do RIG é cada vez mais amplo. E isso é um aspecto que favorece o aumento da presença feminina, uma vez que em atividades como Relações Públicas, Comunicação e Sustentabilidade – que em muitas empresas está sob o guarda-chuva de Assuntos Corporativos (uma das terminologias mais comuns a abarcar a área de RIG) – conta tradicionalmente com maior número de mulheres em seus quadros.

Além disso, a forma como a área se apresenta às pessoas, especialmente aos jovens, também é importantíssima para atrair novos talentos (independentemente de gênero) para o RIG. “Quando você apresenta a área como sendo a responsável por lidar com as relações com governos, as pessoas torcem o nariz, por conta da desconfiança que ainda existe em relação a essas instituições”, explica Nelcina Tropardi, vice-presidente de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da cervejaria Heineken. Segundo ela, a coisa muda de figura quando a explicação começa pela apresentação do objetivo final da área que é cuidar da reputação da companhia. “Aí você atrai o interesse das pessoas para entender o que a gente faz. O jovem, quando vai atrás de um produto, não quer mais só preço e qualidade. Ele quer se conectar com as marcas. Quando você coloca a reputação em jogo, a relação da empresa com o meio ambiente, com gerações futuras, de forma mais ampla, o interesse pela área aumenta”, exemplifica a executiva da cervejaria. Além disso, RIG não lida mais só com Brasília. “O trabalho de RIG, hoje, envolve o entorno da empresa, a comunidade e é preciso jogo de cintura para construir isso. Esse novo cenário traz a necessidade de uma inteligência emocional também, não é mais só sair para tomar um cafezinho ou ir para posturas de confronto, do tipo ‘ou nos aliamos ou brigamos’. É uma questão estratégica”, acredita Ana, da Avon. No caso da fabricante de cosméticos, a própria área de atuação e as causas históricas da empresa, como a emancipação da mulher e, mais recentemente, de forma ativa na luta contra a violência doméstica, favorece a atração.

REFLEXOS DO TOPO

Mas a área de RIG tem características que demandam um olhar um pouco mais aprofundado sobre a sua própria estrutura para entender as peculiaridades que refletem a ainda baixa participação das mulheres nas posições de comando. Nelcina, da Heineken, lembra que é preciso levar em conta que o baixo número de mulheres em posições de liderança na área também deriva do fato de que esse é um cargo que costuma se reportar diretamente ao CEO. E aí, a baixa participação reflete uma questão mais ampla do que a mera situação setorial: a baixa presença feminina no primeiro escalão das empresas. “Mesmo aqui na Heineken, temos um management board com nove pessoas, das quais só duas são mulheres, eu e minha colega do RH”, pontua Nelcina. Mas a executiva acredita que isso tende a se equilibrar nos próximos anos, na medida em que as empresas passam a acreditar que incorporar a diversidade em seus quadros será fundamental para o sucesso dos negócios nos próximos anos. Afinal, só com ela é possível refletir a pluralidade da sociedade brasileira nos quadros e, mais importante, nos processos de decisão das companhias. “Nada mais rico que construção de políticas públicas com diversidade de opiniões, perfis, experiências de vida”, garante Danielle, da P&G. Mas para que isso aconteça de verdade é preciso algo fundamental: o papel da liderança. “A diversidade só vai aumentar de verdade nas empresas quando as lideranças forem inclusivas e abraçarem a diversidade. Não basta só convidar para a festa. Tem que chamar para dançar também”, alerta a vice-presidente da Heineken.

Na área de RIG, ao menos as entrevistadas tem feito isso em relação às mulheres. Em todas as que contam com equipes dedicadas ao tema abaixo delas, a quase totalidade é de colaboradoras. Na verdade, apenas a Heineken tem um homem numa equipe de oito pessoas dedicadas aos temas de Relações Governamentais e Políticas Públicas.

“Entendo que temos o papel de promover a diversidade. Manter mulheres em cargos operacionais e de liderança contribui para que o ambiente mais acolhedor, no qual as mulheres sintam-se confortáveis e aí uma coisa leva a outra”, avalia Michele Shayo. Embora todas trabalhem em empresas com programas de diversidade fortes, as executivas frisam que especificamente no caso de suas áreas, a forte presença feminina é fruto de uma feliz coincidência e não de algo pensado. Independentemente disso, trata-se de um belo exemplo. Que outras empresas façam o mesmo.

 

Publicado originalmente no Anuário Origem 2019: “Avanço Consistente”

 

Imagem: Freepik

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