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“Sempre foi assim” e o Desafio de Transformar Cultura em Compliance

“Sempre foi assim e nunca deu errado.”
Essa é, talvez, uma das frases mais comuns, e mais perigosas, dentro das organizações.

Ela costuma aparecer em momentos de mudança, revisão de processos ou implementação de controles. E quase sempre vem acompanhada de uma resistência silenciosa.

O desafio que ninguém conta

Garantir que uma empresa esteja em conformidade com leis, resoluções e instruções normativas já é, por si só, desafiador. Exige interpretar normativos complexos, traduzir o conteúdo sem juridiquês, orientar áreas de negócio, avaliar impactos e riscos, muitas vezes em estruturas enxutas, que acumulam diferentes funções.

Mas, na prática, esse não é o maior desafio.
O ponto mais sensível está na cultura.

Quando a cultura entra em conflito com o compliance

A frase “sempre foi assim” raramente diz respeito apenas a um processo. Ela revela algo mais profundo: ausência de formalização, práticas pouco transparentes, decisões baseadas em hábito, não em critério.

E, principalmente, uma percepção de que “funcionou até agora” é suficiente.
Mas será que é? E será que funciona?

O que muda no cenário atual e por que a resistência ainda existe

Com o avanço das legislações, a maior atuação dos reguladores e a globalização das operações, o nível de exigência mudou. Hoje, previsibilidade, rastreabilidade e segurança jurídica deixaram de ser diferenciais e passaram a ser expectativa mínima.

Nesse contexto, confiar no “nunca deu errado” deixa de ser conforto e passa a ser risco.

Mesmo assim, a resistência continua. Muitas vezes, a implementação de processos é associada à burocracia. Outras vezes, simplesmente não há clareza sobre os benefícios de estruturar melhor as atividades.

E existe também um fator humano importante: mudar dá trabalho. Rever práticas consolidadas exige esforço e, em alguns casos, desconforto.

O papel do compliance aqui

É justamente nesse ponto que o profissional de compliance se torna estratégico. Não apenas como alguém que aponta riscos, mas como alguém que traduz impactos, contextualiza mudanças e constrói entendimento.

Mais do que impor processos, o papel é conectar riscos a consequências reais e mostrar que a estrutura não é um obstáculo, mas um mecanismo de proteção.

Em síntese, desconstruir o “sempre foi assim” não é simples.
Mas é essencial.

Porque, no fim, muitos problemas não surgem do desconhecido, eles surgem de práticas antigas que nunca foram questionadas.


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Artigo por Gabriela Tardochi – formada em Direito e pós-graduanda em Compliance pela LEC. Atua na área de controles internos, compliance corporativo e PLDFT, com experiência em interpretação regulatória, relacionamento com órgãos reguladores, estruturação e monitoramento de programas de compliance e adequação de processos à rotina empresarial.
As opiniões contidas nesta publicação são de responsabilidade exclusiva da Autora, não representando necessariamente a opinião da LEC ou de seus sócios.
Imagem: Canva
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