BLOG

OKRs e KPIs no Compliance: Por que medir também é humano

Falar sobre Compliance é falar sobre pessoas. Por trás de cada política, procedimento ou relatório, existe sempre uma tentativa genuína de orientar comportamentos, promover integridade e fortalecer a cultura organizacional. É por isso que, mesmo quando discutimos métricas e indicadores, o ponto de partida deve continuar sendo humano. Afinal, Compliance não existe para satisfazer planilhas, existe para proteger pessoas, negócios e valores.

Ao mesmo tempo, a área precisa ser capaz de traduzir suas entregas para públicos diversos: executivos, gestores operacionais, colaboradores e até parceiros externos. Cada um enxerga o impacto do Compliance por lentes diferentes, e cabe ao departamento comunicar esse valor de forma acessível, consistente e tangível. Demonstrar claramente como as iniciativas contribuem para os objetivos estratégicos da organização deixou de ser uma opção: tornou‑se uma necessidade.

Nesse contexto, OKRs e KPIs surgem não como ferramentas de controle excessivo, mas como aliados para contar, com precisão, a história que o Compliance produz no dia a dia.

O cenário atual: bem-vindo à era dos dados

Nos últimos anos, o volume de dados disponível dentro das organizações cresceu exponencialmente. Registros de treinamentos, monitoramentos automatizados, análises de terceiros, indicadores de canais de denúncia, avaliações de riscos, controles transacionais, e tudo isso forma um ecossistema riquíssimo que pode (ou não) ser utilizado estrategicamente.

A área de Compliance, que há uma década se apoiava majoritariamente em orientações qualitativas, hoje é convidada a comprovar a efetividade de suas ações com base em evidências concretas. Essa mudança não significa abandonar a sensibilidade humana, mas sim ampliar sua capacidade de gerar impacto. Dados permitem identificar padrões, priorizar riscos, medir avanços e ajustar rotas com precisão. E, acima de tudo, permitem demonstrar ao negócio o valor real das iniciativas de integridade.

É nesse ponto que o uso estruturado de métricas (especialmente OKRs e KPIs) se torna essencial.

Desmistificando OKRs e KPIs

O que são OKRs? Objectives and Key Results, ou Objetivos e Resultados-chave, são um método de definição de metas que combina clareza, foco e mensurabilidade. Ele foi amplamente difundido por empresas como Google e Intel e consiste basicamente em duas partes:

  • Objetivo (O): uma declaração qualitativa do que se deseja alcançar. Deve ser inspirador, claro e conectado à estratégia da empresa.
  • Resultados-Chave (KRs): indicadores quantitativos que mostram se o objetivo está sendo atingido. São metas específicas, mensuráveis e baseadas em evidências.

Exemplo simples para Compliance:

  • Objetivo: Fortalecer a cultura de integridade.
  • KR: Aumentar em 20% o índice de participação em treinamentos obrigatórios.

OKRs funcionam como um direcionador estratégico: ajudam a área a priorizar o que realmente importa e a comunicar isso de forma objetiva.

Já os KPIs são Indicadores-chave de performance, usados para medir o desempenho contínuo de atividades, processos ou iniciativas. Eles respondem perguntas como:

  • Estamos melhorando?
  • A atividade está funcionando como deveria?
  • Quais áreas precisam de mais atenção?

Os KPIs não servem apenas para provar performance, mas também para orientar decisões. Exemplos comuns no Compliance incluem:

  • Tempo médio de resposta do canal de denúncias.
  • Percentual de terceiros analisados antes da contratação.
  • Taxa de conclusão de treinamentos.

Diferentemente dos OKRs, os KPIs são métricas mais estáveis e operacionais.

Diferenças fundamentais

Apesar de frequentemente citados juntos, OKRs e KPIs têm propósitos distintos:

  • OKRs são sobre transformação e prioridades estratégicas. Mudam com frequência e possuem metas ousadas.
  • KPIs são sobre gestão contínua. Medem a saúde dos processos e ajudam a monitorar estabilidade e eficiência.

Uma forma simples de diferenciar: OKR indica onde você quer chegar, já o KPI mostra como você está indo no caminho.

Ambos são complementares, não concorrentes.

Por que OKRs e KPIs são relevantes para o Compliance?

1. Clareza estratégica: OKRs dão direção

Compliance, muitas vezes, enfrenta o desafio da “percepção intangível”. A área trabalha em ciclos que nem sempre são facilmente traduzidos em resultados mensuráveis, e isso dificulta a comunicação com o negócio.

OKRs resolvem parte desse problema ao:

  • Conectar diretamente os objetivos da área à estratégia corporativa.
  • Priorizar iniciativas que realmente movem a agulha em termos de riscos.
  • Reduzir dispersão de esforços.
  • Facilitar conversas sobre impacto.

Ao definir OKRs, o departamento passa a demonstrar que suas metas não existem isoladamente, mas sim contribuem para metas maiores, como expansão internacional, eficiência operacional ou mitigação de riscos críticos.

2. Monitoramento contínuo: KPIs fortalecem a gestão

KPIs permitem um acompanhamento constante das iniciativas. Eles ajudam a responder perguntas essenciais:

  • O programa de Compliance está evoluindo?
  • Nossos controles estão funcionando?
  • Os riscos estão se materializando menos?
  • O canal de denúncias está ágil e confiável?

Com KPIs, é possível identificar gargalos cedo, ajustar esforços e mostrar eficiência. Além disso, indicadores bem construídos geram confiança e transparência, dois pilares-chave da governança corporativa.

3. Medir não é engessar: é dar visibilidade

Uma preocupação comum é a ideia de que métricas podem padronizar demais o Compliance ou transformá-lo em uma área puramente operacional. Isso só ocorre quando indicadores são mal elaborados ou usados para controle excessivo.

Na prática, quando bem aplicados, OKRs e KPIs:

  • Potencializam o lado humano do Compliance ao liberar tempo para atividades estratégicas (até porque, nenhum profissional da área quer passar horas a fio em atividades extremamente repetitivas e operacionais).
  • Ajudam a priorizar esforços que realmente protegem pessoas e negócios (e dão propósito aos profissionais da área).
  • Tornam mais clara a evolução da maturidade da área (e facilitam a discussão sobre necessidade de mais recursos, humanos e tecnológicos, para o Compliance).
  • Criam pontes de comunicação com áreas como financeiro, operações e tecnologia (e aumentam engajamento junto a outros stakeholders importantes).

4. Não existe “one size fits all”

Cada área de Compliance opera em um contexto específico: modelo de negócio, apetite a risco, tamanho da operação, maturidade regulatória, cultura interna, presença global.

Por isso, dois princípios devem ser lembrados:

  • OKRs devem estar alinhados à estratégia específica da empresa.
  • KPIs devem medir aquilo que faz sentido para aquele programa.

Por exemplo, uma empresa fortemente regulada pode priorizar KPIs ligados a controles transacionais; já uma startup pode focar em cultura e treinamento. O importante é que as métricas reflitam as necessidades reais do negócio e contribuam para sua evolução.

Conclusão: Métricas como ponte entre Compliance e negócio

A adoção de OKRs e KPIs não transforma o Compliance em um departamento de números, pelo contrário. Quando aplicadas com cuidado, essas ferramentas ampliam o impacto humano da área. Elas tornam visível o que antes era percebido apenas de forma subjetiva. Permitem conversas mais maduras com executivos, facilitam a priorização de riscos e ajudam a contar a história de evolução do programa de Compliance com clareza e propósito.

Em um mundo guiado por dados, não basta fazer o certo. É preciso demonstrar, com transparência e evidências, como o programa contribui para a integridade e a sustentabilidade do negócio.

Quando o Compliance utiliza métricas de forma inteligente, ele deixa de ser visto apenas como um guardião de regras e passa a ser um parceiro estratégico essencial, capaz de apoiar o crescimento da empresa com responsabilidade, ética e visão de futuro.

E, no fim das contas, é isso que mantém vivo o aspecto mais humano do Compliance: a capacidade de conectar pessoas, processos e propósitos, mas agora munido de dados que tornam essa conexão ainda mais forte.


Conheça o MBA em Compliance da LEC


As opiniões contidas nas publicações desta coluna são de responsabilidade exclusiva do Autor, não representando necessariamente a opinião da LEC ou de seus sócios.
Imagem: Canva
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

ESTÁ COM DÚVIDA?

Fale com um especialista