Uma conversa com Bruno Brasil, Diretor Global de Compliance, Gestão de Riscos e Auditoria Interna da Odebrecht Engenharia e Construção.
Poucos nomes estão tão ligados à história recente da área de Compliance no Brasil quanto o da Odebrecht. A tradicional companhia brasileira de engenharia, que deu origem a um dos maiores grupos empresariais brasileiros com grandes obras construídas ao redor do mundo, recebeu as maiores multas entre as empreiteiras envolvidas na Lava Jato, viveu um processo de monitoramento externo tanto pelas autoridades locais quanto dos Estados Unidos e entrou em recuperação judicial (RJ). Todos esses eventos traumáticos levaram a Odebrecht a construir um dos mais robustos sistemas de Compliance do Brasil, reconhecido por especialistas tanto no Brasil quanto no exterior. E agora que emergiu da RJ, o último resquício dos acontecimentos do passado recente, a Odebrecht se prepara para um novo ciclo de crescimento no Brasil e no exterior. Nesta entrevista, Bruno Brasil, Diretor Global de Compliance, Gestão de Riscos e Auditoria Interna, conta como a área de Compliance se preparou para apoiar a empresa nesse novo momento.
Em março deste ano, a Odebrecht Engenharia e Construção concluiu o seu processo de Recuperação Judicial (RJ). Certamente é um grande marco para a companhia, mas particularmente para a área de Compliance da empreiteira, qual o impacto disso, tanto em termos estruturais quanto de uma eventual mudança nas prioridades da área para a companhia?
A conclusão da Recuperação Judicial representa um marco institucional relevante para a companhia e para a área de Integridade, ao sinalizar maturidade, estabilidade e capacidade de evolução após um período desafiador. Ao longo deste processo, a área de Integridade e Auditoria se manteve estável em termos de tamanho de equipe e orçamento, assegurando a continuidade e fortalecimento da Jornada de Transformação iniciada após o período da Lava Jato.
Com o encerramento da RJ, as principais mudanças não foram de natureza estrutural da equipe, mas se concentram, sobretudo, no aumento das demandas decorrentes da retomada da expansão dos negócios, bem como na evolução das expectativas dos stakeholders.
Esse cenário reforça o papel estratégico da área de Integridade na sustentação do crescimento da companhia, atuando não apenas como área de controle, mas como parceira do negócio na antecipação e mitigação de riscos relevantes.
E como a área de Compliance está se preparando para suportar a empresa nesse novo ciclo?
A área de Integridade vem se preparando para apoiar o novo ciclo de crescimento da companhia com foco em eficiência operacional com a incorporação de tecnologia, maior proximidade com o negócio e uma atuação cada vez mais qualificada na análise e mitigação de riscos. Esse preparo está estruturado em três frentes complementares que permitem apoiar a expansão das operações sem perder a robustez do Programa de Integridade.
Uma dessas frentes é a integração de soluções tecnológicas e de Inteligência Artificial aos processos da área de Integridade. O uso dessas ferramentas tem como objetivo ampliar a capacidade de análise e monitoramento com base em risco, além de promover a simplificação e a desburocratização de processos e controles, contribuindo também para o aprimoramento da experiência do usuário interno.
Outro eixo central dessa preparação é o fortalecimento da proximidade com o negócio. Como exemplo desta abordagem, foi lançada, no fim do ano passado, a campanha “Integridade na Linha”. Trata-se de uma iniciativa estruturada da área de Integridade, que reúne diferentes ações integradas, orientada por três pilares principais: a aproximação contínua com as obras e projetos; a escuta ativa e a cocriação de iniciativas junto às áreas operacionais; e a melhoria contínua do Programa de Integridade, sempre a partir da realidade prática do negócio e dos desafios enfrentados no dia a dia das operações.
Além disso, a área mantém um processo estruturado de Monitoramento de Alto Risco, direcionado a relações, operações e transações classificadas como de maior nível de risco para a companhia. Esse monitoramento contempla a definição e a implementação de planos de mitigação, bem como o acompanhamento contínuo da efetividade dessas ações.
Mesmo passado tanto tempo, ainda é comum muitas pessoas acreditarem que com o fim da Lava Jato, o Compliance perdeu força nas empresas. Pouco mais de 10 anos atrás, a Odebrecht esteve no epicentro desse processo. Com esse intervalo e não tendo vivido diretamente aquele período, que avaliação você faz da estrutura de Compliance da companhia hoje em comparação com a estrutura que vigorou nos anos seguintes ao escândalo, inclusive com o monitoramento externo? Muita coisa que foi (ou parecia ser) imprescindível naquele momento deixou de fazer sentido para o momento atual da empresa e do mercado?
A estrutura de Integridade e Auditoria da companhia passou por uma evolução substancial desde o período imediatamente posterior ao episódio e ao monitoramento externo até o momento atual, mantendo o rigor e performance, assim como a estrutura organizacional da área, que responde diretamente ao Conselho de Administração, que conta com membros Independentes.
Nos últimos dez anos, em grande medida em função das exigências decorrentes do monitoramento externo, o Programa de Integridade concentrou-se prioritariamente em ações e processos voltados ao combate e à prevenção à corrupção, com forte ênfase na implementação e consolidação de controles, processos e mecanismos formais, alinhados às demandas regulatórias e institucionais daquele contexto.
Esse período foi fundamental para o fortalecimento das bases do Programa de Integridade, permitindo à companhia estruturar políticas, processos e uma governança sólida, que serviram de alicerce para os avanços observados nos anos seguintes. Com o amadurecimento do Programa e a evolução do ambiente interno e externo, observou-se uma transição natural de um modelo mais orientado ao atendimento formal de requisitos para uma abordagem cada vez mais focada na efetividade, na gestão estratégica de riscos e na integração com o negócio.
Paralelamente, a agenda de riscos endereçada pela Integridade foi ampliada e atualizada, incorporando com maior protagonismo à promoção de uma cultura de respeito e ética, bem como a prevenção à violência no trabalho, incluindo temas como assédio moral, assédio sexual e discriminação.
Essa evolução se reflete em uma postura renovada da área, materializada em iniciativas estruturantes como a campanha Integridade na Linha, que reforça a proximidade da Integridade com as operações, e os programas Respeito Transforma (2023–2024) e Respeito Constrói (2026-), ambos voltados à prevenção de situações de violência no trabalho e ao fortalecimento da cultura organizacional.
Quanto de tecnologia a área de Compliance da Odebrecht tem embarcada hoje nas suas atividades? E qual o impacto dela em termos de SLA, tamanho e orçamento da equipe?
A área de Integridade da Odebrecht utiliza de forma intensiva tecnologia e ferramentas analíticas como elemento central de sua atuação. Entre os principais recursos estão ferramentas analíticas como o KNIME, soluções de Business Intelligence (BI) para análise de dados, indicadores e tendências, além do uso de agentes das plataformas corporativas de Inteligência Artificial, como o Copilot e o Gemini, adaptadas para o ambiente Odebrecht (Smart Odebrecht).
O uso de Inteligência Artificial tem sido mais intensivo nas atividades de monitoramento e auditoria interna, em razão da necessidade de analisar grandes volumes de dados e identificar padrões, desvios e riscos de forma mais eficiente e assertiva. Em outras frentes, como processos internos, due diligence e comunicações e treinamentos, essas ferramentas são utilizadas de forma complementar, apoiando o trabalho das equipes para a consolidação de um time com perfil cada vez mais estratégico.
Um terço do portfólio de obras da Odebrecht hoje está no exterior. Como o Compliance da empresa atua nos mercados internacionais? A área tem profissionais atuando in loco nesses países?
Cerca de um terço do portfólio de obras da companhia está localizado no exterior, o que exige da área de Integridade uma atuação consistente em ambientes diversos, muitas vezes regulatoriamente complexos e culturalmente distintos. Esse desafio é potencializado pelas características do setor de Engenharia e Construção, cuja operação é altamente descentralizada, com obras que funcionam, na prática, como unidades empresariais com grande autonomia.
Diante disso, toda a estrutura de Integridade é suportada pela equipe corporativa, que atua de forma transversal e integrada às operações no Brasil e no exterior. Para garantir proximidade com o negócio e presença efetiva sem a criação de uma estrutura local, a área de Integridade adotou um modelo de atuação baseado em iniciativas de aproximação e presença reforçada junto às operações.
O modelo de atuação internacional se estrutura em três frentes complementares: o relacionamento dos CRIs com o nível gerencial das obras; a atuação dos Multiplicadores de Integridade; e a interface constante entre os profissionais de comunicação das obras com a equipe de comunicação corporativa de Integridade.
Entre essas frentes, destaca-se a atuação dos CRIs como elemento central de aproximação com o negócio. São profissionais em posição gerencial e com elevada senioridade, responsáveis por apoiar localmente as obras e projetos e por manter relacionamento próximo com a liderança local. Por meio de deslocamentos frequentes, os CRIs asseguram presença periódica nos países onde a companhia atua, fortalecendo a efetividade do Programa de Integridade no contexto internacional.
Esse arranjo permite uma presença efetiva nos diferentes países, com adaptação às realidades e riscos locais, ao mesmo tempo em que assegura consistência na aplicação dos princípios, diretrizes e valores do Programa de Integridade em todas as geografias onde a empresa atua.
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