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Fraude em Saúde e Compliance Efetivo

Controle, dados e credibilidade institucional na sustentação das decisões técnicas

Minha atuação com investigações de fraude em saúde e compliance demonstra que o enfrentamento da fraude não depende apenas da identificação de irregularidades, mas da capacidade institucional de sustentar controles e decisões técnicas de forma consistente.

Em um setor complexo, altamente regulado e judicializado, a fraude em saúde se apresenta como risco estrutural, não como exceção. Práticas irregulares impactam o equilíbrio econômico-financeiro das operadoras, pressionam reajustes e afetam diretamente o acesso do beneficiário à assistência adequada.

Fraude em saúde não é desvio pontual. É risco sistêmico mensurável.

A experiência prática evidencia que sistemas de compliance não se constroem na crise. Investigações internas, auditorias externas e litígios apenas revelam a maturidade — ou fragilidade — dos controles implantados no cotidiano: fluxos de autorização, auditoria assistencial, uso consistente de dados, clareza contratual e governança decisória.

O uso de dados é elemento central, mas insuficiente isoladamente. Auditorias orientadas por dados, cruzamento de bases e indicadores ampliam a capacidade de detecção de padrões irregulares. No entanto, esses mecanismos perdem efetividade quando não há governança capaz de sustentar decisões técnicas, inclusive negativas e glosas impopulares.

Dados sem respaldo institucional não sustentam decisões.

A atuação em investigações internas demonstra que controles meramente formais se esgotam rapidamente, assim como decisões sem base técnica não se sustentam no médio prazo. O que gera consistência é a convergência entre dados, governança e previsibilidade ética.

Quadro – Exemplos recorrentes de fraudes em saúde identificadas na prática

Conduta IdentificadaDescrição TécnicaRisco Institucional
Procedimentos sem
indicação clínica adequada
Exames, terapias ou procedimentos sem aderência a
protocolos e diretrizes técnicas, muitas vezes amparados por laudos genéricos
Aumento artificial de
custo e distorção
do cuidado
Sobreposição e
duplicidade de
atendimentos
Cobrança de sessões ou consultas incompatíveis no tempo, comum em terapias seriadas e atendimentos multiprofissionaisInviabiliza controle
assistencial
Uso inadequado ou superfaturamento
de OPME
Materiais sem indicação compatível, troca por itens de maior custo ou cobrança de itens não utilizadosAlto impacto
financeiro e risco
regulatório
Fragmentação
artificial de
procedimentos
Divisão indevida de atos assistenciais para maximizar faturamentoDistorção do
modelo
remuneratório
Conluio entre
prestadores
Atuação coordenada para inflar produção ou contornar controlesRisco sistêmico
e difícil detecção
Uso indevido de
dados do
beneficiário
Faturamento de atendimentos não realizados ou repetição indevida de procedimentosRisco jurídico
e perda
de confiança
Judicialização
estratégica
Uso recorrente do Judiciário para impor coberturas sem lastro técnicoErosão da
governança
decisória

Elementos objetivos de um compliance efetivo no combate à fraude

  • mapeamento estruturado de riscos assistenciais e financeiros;
  • auditorias baseadas em dados e padrões;
  • governança contratual alinhada à regulação;
  • capacidade institucional de sustentar negativas e glosas fundamentadas;
  • previsibilidade ética na condução de conflitos recorrentes;
  • integração entre compliance, auditoria, jurídico e área assistencial.

Sem integração, o controle vira ruído.

Considerações finais

Fraude em saúde não é um evento episódico. É um fenômeno recorrente que exige atuação técnica, integrada e contínua. Programas de compliance não eliminam o risco, mas reduzem sua ocorrência e impacto, fortalecendo a sustentabilidade do sistema e a legitimidade das decisões institucionais.

A formação específica em Compliance em Saúde, por meio do curso da LEC, contribuiu para consolidar uma visão sistêmica do ecossistema da saúde suplementar, permitindo compreender a fraude como resultado da interação entre modelos de remuneração, incentivos econômicos, regulação, judicialização, contratos, dados assistenciais e estruturas de governança. Essa abordagem ampliou a capacidade de análise de riscos estruturais e qualificou a condução de investigações internas, reforçando a importância da integração entre áreas técnicas como condição para a sustentação de decisões em ambientes de alta pressão institucional.

Em saúde, compliance não é narrativa. É método, controle e consistência.


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As opiniões contidas nas publicações desta coluna são de responsabilidade exclusiva da Autora, não representando necessariamente a opinião da LEC ou de seus sócios.
Imagem: Canva
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