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Compliance no Cotidiano: a Cultura das Pequenas Escolhas

Quando se fala em compliance, é comum imaginar um conjunto de normas complexas, códigos extensos, políticas internas rígidas e auditorias constantes. No entanto, essa visão limitada acaba afastando as pessoas do verdadeiro propósito do compliance: criar uma cultura ética, responsável e previsível, baseada em escolhas corretas feitas diariamente. O compliance não começa nos grandes escândalos corporativos, mas nas pequenas atitudes do cotidiano.

Reeducar comportamentos é um dos maiores desafios das organizações e da sociedade como um todo. E essa reeducação não se limita ao ambiente corporativo. Ela começa na rua, no trânsito, no transporte público, nos espaços compartilhados e nas relações interpessoais. As regras existem para garantir convivência, segurança e eficiência — exatamente os mesmos objetivos do compliance dentro das empresas.

O respeito às regras como base da ética

Ultrapassar um veículo pelo lado direito, por exemplo, pode parecer uma infração simples ou até “inofensiva” para alguns motoristas. No entanto, essa atitude demonstra uma lógica perigosa: a de que as regras só valem quando são convenientes. Esse tipo de pensamento, quando levado para dentro das organizações, pode resultar em práticas como burlar processos internos, ignorar controles ou justificar pequenas irregularidades em nome de resultados rápidos.

Compliance é, essencialmente, sobre respeito às regras, mesmo quando ninguém está olhando. Da mesma forma que no trânsito, onde a sinalização existe para proteger a coletividade, nas empresas as normas servem para garantir integridade, transparência e igualdade de condições para todos.

A escada rolante e o senso de coletividade

Outro exemplo simples, mas extremamente didático, é o uso da escada rolante. Em muitas cidades, tornou-se uma regra informal: quem está parado fica à direita, deixando a esquerda livre para quem está com pressa. Quando essa convenção é respeitada, o fluxo funciona melhor e todos ganham. Quando é ignorada, surgem conflitos, atrasos e irritação.

Esse comportamento reflete perfeitamente o conceito de compliance como convivência organizada. Não se trata apenas de obedecer a uma regra escrita, mas de compreender o impacto da própria atitude no coletivo. Dentro das empresas, isso se traduz em respeitar fluxos de aprovação, seguir canais adequados de comunicação e entender que processos existem para facilitar, não para atrapalhar.

Atravessar na faixa: escolhas simples, impactos grandes

Atravessar a rua fora da faixa de pedestres é outro hábito comum que revela muito sobre a relação das pessoas com regras. Muitas vezes, a justificativa é a pressa ou a falsa sensação de controle da situação. No entanto, esse comportamento não apenas coloca vidas em risco, como também enfraquece a autoridade das normas de trânsito.

No ambiente corporativo, essa mesma lógica aparece quando colaboradores pulam etapas de um processo, deixam de registrar informações importantes ou ignoram políticas internas por acharem que “não faz diferença”. A cultura do compliance combate exatamente essa mentalidade, reforçando que pequenas violações podem gerar grandes consequências.

Boas regras de convivência como prática diária

Cumprimentar as pessoas, respeitar filas, ouvir antes de falar, cumprir horários, manter ambientes limpos e organizados — todas essas atitudes fazem parte de uma convivência saudável e também refletem princípios básicos de compliance. Elas demonstram respeito, responsabilidade e compromisso com o outro.

Empresas que valorizam o compliance entendem que comportamento ético não se limita ao cumprimento de leis, mas inclui postura, atitude e exemplo. Um código de conduta eficaz não é aquele que fica esquecido em uma gaveta, mas aquele que se reflete nas ações diárias das pessoas.

Compliance não é punição, é educação

Um dos maiores erros ao tratar de compliance é associá-lo exclusivamente à punição. Embora mecanismos disciplinares sejam necessários, o verdadeiro fortalecimento da cultura de compliance acontece por meio da educação e da conscientização. Assim como campanhas de trânsito buscam educar motoristas e pedestres, programas de compliance devem explicar o “porquê” das regras, não apenas o “o que” deve ser feito.

Reeducar pessoas exige paciência, comunicação clara e, principalmente, coerência entre discurso e prática. Não adianta exigir comportamento ético se lideranças não dão o exemplo. Da mesma forma, não se constrói uma cultura de compliance ignorando pequenos desvios do dia a dia.

O poder do exemplo e da consistência

As pessoas aprendem muito mais pelo exemplo do que por discursos. Quando alguém respeita as regras de trânsito, mesmo em situações em que poderia facilmente burlá-las, transmite uma mensagem poderosa. O mesmo acontece dentro das organizações: líderes que seguem políticas, respeitam processos e tratam todos de forma justa fortalecem a credibilidade do compliance.

A consistência também é fundamental. Regras que são aplicadas apenas em determinadas situações ou para determinadas pessoas perdem força e legitimidade. Compliance eficaz exige coerência, previsibilidade e justiça — exatamente como as regras que organizam a vida em sociedade.

Conclusão

Compliance não é algo distante, técnico ou exclusivo do mundo corporativo. Ele está presente nas escolhas diárias que fazemos, nos pequenos gestos e nas atitudes aparentemente simples. Respeitar uma sinalização, deixar espaço para o outro, seguir regras de convivência e agir com responsabilidade são exercícios diários de ética e cidadania.

Ao compreender o compliance como uma cultura de reeducação comportamental, fica mais fácil engajar pessoas e transformar normas em valores. Afinal, organizações são formadas por indivíduos, e indivíduos levam para o trabalho aquilo que praticam todos os dias fora dele. Promover compliance é, antes de tudo, promover uma sociedade mais consciente, respeitosa e ética.


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As opiniões contidas nas publicações desta coluna são de responsabilidade exclusiva do Autor, não representando necessariamente a opinião da LEC ou de seus sócios.
Imagem: Canva
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