Após seis anos de um mandatário assumidamente “arisco” ao diálogo com o setor privado, o Governo do México, sob a presidência de Cláudia Sheinbaum, vem abrindo mais espaços para os contatos com as empresas e até as chamando para contribuir na construção de políticas e nas respostas ao tarifaço dos Estados Unidos
Apesar de estarmos todos sobre o grande guarda-chuva da América Latina, para nós, aqui do Brasil, entendermos a política mexicana e o seu ambiente de negócios – ou mesmo a sua cultura muito influenciada pelas tradições da poderosa civilização asteca – não é tarefa simples. Na verdade, é um pouco mais complexo do que pode parecer num primeiro olhar.
Na questão da organização do Estado, o México também é uma federação, na qual existem regras e arranjos regionais e locais que nem sempre se alinham com o que é ditado a partir da cidade do México. Trata-se de um país bastante diverso etnicamente e culturalmente. Posto isso, em todos os outros aspectos, a dinâmica é bem diferente do que vivemos aqui no Brasil, e mesmo em outros países da região.
Um primeiro ponto a se destacar é que o exercício da política e do poder no México se dá de forma bastante centralizada. E isso em vários aspectos.
Geograficamente, a cidade do México concentra o poder político, econômico e cultural do país. “No México, estamos divididos em 32 entidades federais, mas a capital concentra tudo. Eu diria que quase 90% dos ativos públicos estão concentrados na cidade do México”, afirma Marco Antonio Del Valle Villegas, diretor da área de Public Affairs da Burson no México. Dessa forma, é natural que toda a atividade central de relações públicas se concentre ali também. Algumas questões econômicas e atividades específicas com governos locais, por exemplo Guadalajara e Monterrey, que estão entre as maiores cidades do país, até são realizadas. Estratégias específicas são desenvolvidas para essas regiões e algumas equipes ou empresas, por exemplo, têm no máximo uma ou duas pessoas que se dedicam a gerenciar esse tipo de atividade. “É a partir da capital que tudo é planejado estrategicamente, constituindo-se, portanto, como um sistema centralizado”, diz Villegas.
O governo federal, mais precisamente a figura da Presidência, também tem muito mais poder concentrado em si, deixando-a, na prática, numa posição de muito mais força em relação aos outros poderes da república: o Legislativo e o Judiciário. Aliás, um dos projetos mais controversos da gestão do ex-presidente Antonio Manoel Lopes Obrador (AMLO), a reforma do judiciário mexicano, aprovado pela Câmara e pelo Senado Federal mas ainda não promulgado, foi considerado por muitos como uma forma de interferência indevida da presidência no sistema de justiça.
A força da cadeira presidencial é reflexo de outra centralização: a do sistema partidário. Muito diferente do Brasil, onde após a redemocratização o número de agremiações partidárias só fez crescer e existem várias delas com algum poder de fogo para interferir no processo político, o México tem uma longa história de poder concentrado em um único partido. O Partido Revolucionário Institucional (PRI), governou o México de forma hegemônica por 70 anos até 2000, quando perdeu a eleição presidencial pela primeira vez para o Partido Acción Nacional (PAN), de direita, que governou por dois mandatos de seis anos (no México, não há reeleição). Desde 2018, quem vem dando as cartas é o Morena, um movimento liderado por AMLO e que elegeu sua sucessora, Claudia Sheinbaum, ex-prefeita da capital, para um mandato que vai até 2030.
Diante desse cenário, ter o domínio sobre o partido faz toda a diferença, e a atual presidente herdou e ampliou esse poder, com um “nível de aprovação altíssimo, controle do Congresso e domínio político”, como explica a executiva brasileira Suelma Franco, diretora de Relações Governamentais da PepsiCo para o México (para onde se mudou neste ano) e América Latina. A consequência dessa arquitetura de poder é que a ação de relações governamentais no México é muito mais pautada no Palácio Nacional do que no Parlamento.
E essa presidência poderosa também é, pode-se dizer, mais personalista. Não que o perfil de quem se senta na cadeira presidencial não influencie na forma como o seu governo é conduzido em outros países, ou mesmo aqui no Brasil. Ninguém precisa ser um expert na área de RIG para entender que a forma de trabalhar dos governos Bolsonaro e Lula são muito distintas, para ficarmos nos nossos presidentes mais recentes. Mas como o poder por aqui é compartilhado com mais poderes (e os pesos e contrapesos, em alguma medida, também se fazem mais presentes), na prática travas costumam ser impostas aos planos presidenciais quando eles não encontram eco no ordenamento legal, em uma construção com o Legislativo, nas elites ou mesmo nas ruas (que não é o mesmo que “bombar nas redes sociais”). Lá, o estilo de cada presidente consegue transbordar mais facilmente a ponto de “encobrir” a burocracia no ambiente institucional, se for essa a intenção.
Além disso, uma cadeira muito mais sujeita às vontades dos seus ocupantes traz sempre o risco de decisões intempestivas bagunçarem os combinados. “O papel que desempenhamos nas equipes de relações governamentais está se tornando cada vez mais indispensável em um México cuja realidade atual é extremamente incerta”, acredita Miguel Rodulfo, gerente sênior de Public Affairs da coreana Samsung. Para o executivo, é extremamente importante, até mesmo crucial, ter uma compreensão precisa do ambiente político e econômico para fornecer dados e análises que levem a uma tomada de decisão sólida por parte das empresas.
A transição do poder da presidência de AMLO para Claudia Sheinbaum, com ela encampando muito do que foi feito na gestão dele, exacerba essa situação, em especial na forma como cada um enxerga a relação do Estado com o setor privado. O presidencialismo bastante personalista estabelecido sob López Obrador foi caracterizado por um poder centralizado, baseado em sua grande popularidade junto às massas populares e na mobilização de todo o seu capital político, o que lhe permitiu atuar por todo o seu mandato em modo de confronto, inclusive com a mídia tradicional e com as empresas. “AMLO recebia muito menos o setor privado e utilizava suas coletivas de imprensa matinais, as ‘mañaneras’, para sobrepujar a mídia e ditar a sua agenda unilateralmente”, pontua Suelma.
Além disso, havia uma hostilidade declarada a intermediários, os calbideos (termo em espanhol que seria equivalente ao nosso lobista). “O governo AMLO exigia falar apenas com representantes diretos das empresas, chegando a expulsar qualquer intermediário das reuniões”, lembra Villegas. Para os profissionais de RIG, isso se traduziu em um ambiente de acesso severamente restrito. O diretor da Burson no México descreve que o diálogo com o setor empresarial estava limitado a duas portas: o ministério da economia e o próprio gabinete presidencial. “Sob AMLO, o poder era exercido através do confronto e da limitação deliberada do acesso, forçando o setor privado a adotar uma postura defensiva, de proteção, não de proposição”, reforça.
Além disso, viu-se durante esse período uma ruptura com a tradicional burocracia mexicana. “Um funcionalismo público muito qualificado, muito técnico, foi deliberadamente substituído por indicações mais políticas”, lembra Ricardo Mendes, sócio da consultoria brasileira de public affairs Prospectiva e responsável pela operação da firma na América Latina.
Embora represente “continuidade”, em especial nos aspectos sociais do programa de governo, e não tenha se oposto a projetos controversos do seu antecessor, como a reforma do poder judiciário, Claudia Sheinbaum trouxe também uma nova agenda. E tem elementos de força necessários para fazer valer a sua pauta. “Ela chegou ao poder com uma grande votação e, consequentemente, uma maior legitimidade”, lembra Villegas, mantendo o total controle político do Morena. E nessa nova agenda, a presidente abriu um espaço de diálogo com o setor privado, uma abertura controlada, é verdade. Mas inegavelmente, a nova abordagem tem aberto mais “janelas” para o diálogo entre o Estado e o setor privado. As “mañaneras”, outra herança mantida, agora também são usadas para anunciar investimentos de empresas e para consultar líderes empresariais, como fez durante o início da crise das tarifas com os Estados Unidos.
Com o maior espaço para o diálogo, emerge também a necessidade dos profissionais de RIG locais repensarem a sua abordagem de ação no país, evoluindo para um advocacy que precisa ser mais técnico, baseado em dados, estudos e evidências que demonstrem alinhamento com a agenda de desenvolvimento do governo, algo muito mais valorizado agora, sob uma presidente que é Física de formação e antes de se assumir definitivamente como política, fez carreira no mundo acadêmico. Sob AMLO, a advocacia exigia navegar pelo discurso político ideológico. Sob Sheinbaum, o pêndulo mudou e o governo recebe e trata bem esses dados.
Da mesma forma, a presidente restaurou a burocracia estatal, reativando conselhos de assessoria técnica que haviam sido abandonados. Mas, como lembra Mendes, da Prospectiva, há limites também que precisam ser compreendidos por quem opera as políticas de advocacy pelo lado do setor privado. “O governo quer o diálogo técnico para discutir como se aproveitar do movimento de nearshoring ou sobre como melhorar a eficiência das compras públicas, não para questionar os pilares do seu projeto político”. A própria exigência de dados pode ser vista também como uma ferramenta política sofisticada. Ao elevar o nível das argumentações, o novo governo marginaliza o lobby personalista da “velha guarda” e muitos dos oponentes ideológicos, consolidando assim seu controle sob uma aparência de objetividade e cooperação.
Reformando as compras públicas
Uma das prioridades na “agenda própria” de Sheinbaum foca em mudar a forma como o governo faz suas compras. O objetivo é reverter o modelo da era AMLO, onde cerca de 80% dos contratos se davam por indicação direta. Para mitigar os riscos de corrupção, a nova administração busca implementar mais processos de leilão reverso e licitações, que abram espaço para pequenas e médias empresas, como lembra Villegas.
No entanto, até meados do ano a implementação vinha sido caótica. “Apenas no setor de saúde, o governo tentou cinco modelos de compras distintas, nem sempre bem-sucedidos, gerando imprevisibilidade para as empresas”, conta Sofia Fuentes, da Prospectiva. Para o diretor da consultoria brasileira, o que se observa é um choque entre a intenção técnica de Sheinbaum e a capacidade estatal de execução, muito em função da ruptura com a burocracia mexicana promovida pelo ex-presidente. “O caos nas compras de saúde é sintoma desse descompasso”, explica Ricardo Mendes. O maior risco para as empresas não é a política em si, mas a execução falha por uma burocracia enfraquecida.
Assim como se dá por aqui, Sofia lembra que a área da Saúde é um dos maiores geradores de demanda para a área de RIG, e a pauta do setor envolve reformas estruturais, a introdução de novas tecnologias e um impulso governamental para a produção nacional de insumos e medicamentos.
Outra frente de ação prioritária é a agenda ambiental e de sustentabilidade. “A presidente realmente trouxe essa pauta para o centro do debate, colocando pessoas fortes no ministério do Meio Ambiente, algo que não acontecia antes”, pontua Suelma. O background de Sheinbaum na área de energia também ajuda a impulsionar fortemente a pauta de sustentabilidade. Novas leis foram anunciadas, incluindo uma lei sobre economia circular e também uma lei sobre questões hídricas. A presidente planeja acelerar a transição para energias renováveis no México, com o objetivo de atingir 45% de energia renovável até 2030. Com isso, a pasta foi elevada a uma posição estratégica para “otimizar os investimentos” em sustentabilidade, em especial os investimentos privados.
A elite econômica
Tanto quanto o poder político, o poder econômico no México é também muito concentrado em alguns poucos bairros da Cidade do México. E os grandes líderes empresariais do país são na verdade representantes de algumas poucas famílias muito poderosas, que concentram o poder econômico e os acessos políticos. Sobrenomes como Slim, Salinas, Larrea, Aramburuzabala, Beckmann e Gonda representam algumas das maiores fortunas da América Latina.
A proximidade (física inclusive) entre essa elite empresarial local e os tomadores de decisão, altera a percepção de valor dos serviços de RIG ofertados no país. O sócio da Prospectiva nota que as empresas locais são menos dispostas a pagar por informação, inteligência e monitoramento. “No Brasil, a distância geográfica entre São Paulo e Brasília, por exemplo, e a própria fragmentação do poder, com um Congresso forte, tornam o monitoramento e a inteligência um produto de alto valor. No México, a proximidade e a centralização tornam o monitoramento uma commodity. Seus líderes estão todo dia na rua captando informações”, diz Ricardo Mendes, apontando que a demanda principal no México para consultorias de RIG é por estratégias de advocacy para navegar um Executivo monolítico, ou mesmo para trabalhos de comunicação ou marketing institucional. “O acesso aos tomadores de decisão, eles já têm garantido”, reforça.
Naturalmente existe um outro grupo de empresas poderoso, o das multinacionais. Mas essas grandes empresas estrangeiras, entre as que mais sofreram durante os anos de AMLO, constituem um grupo separado, como diz Suelma, da PepsiCo, operando em geral por meio de associações como a AmCham (Câmara Americana de Comércio). É como se essas empresas operassem em outro campo de atuação.
Agora, com a ênfase do governo Sheinbaum no diálogo e na abertura para escutar um advocacy técnico, o jogo para essas multinacionais, outsiders por definição, representa uma vantagem inesperada. “Ela nivela o campo de jogo, permitindo que uma multinacional com dados superiores sobre nearshoring ou saúde tenha, naquela pauta específica, mais influência do que um grupo local que depende apenas de acesso pessoal”, acredita Mendes.
A prática do Cabildeo
A prática de Relações Governamentais no México opera em um vácuo legal. O cabildeo não tem uma regulação, não é mencionada na Constituição, nem nas leis federais; “a única menção reside em artigos nos regimentos internos das câmaras do Congresso”, pontua Villegas.
Na ausência de regras claras para a atuação, o diretor da Burson explica que a transparência (na relação estabelecida com o poder público) depende dos standards de cada empresa. Assim como aqui e em outros lugares mundo afora, o termo “lobista” carrega uma conotação negativa, o que leva os profissionais que atuam na prática da defesas de interesses a preferirem outros títulos como “assessores de assuntos públicos”.
Uma mudança importante nesse contexto foi a criação da secretaria de anticorrupción y buen gobierno. Junto dela, espera-se que possa vir uma legislação que defina melhores práticas para as relações com o setor público em matéria de transparência”. Acredita-se que a nova lei de transparência não será apenas sobre registrar reuniões, mas que sirva como uma ferramenta legal para forçar a transição do advocacy personalista para uma abordagem técnica, potencialmente criando requisitos para a submissão de dados e análises de impacto, em linha com o estilo de governança preferido de Sheinbaum.
A maior parte do cabildeo formal é realizada pelas câmaras empresariais. Villegas conta que grandes entidades, como o Consejo Coordinador Empresarial (CCE) e a Coparmex (a cúpula dos empresários), são as entidades que se posicionam sobre os grandes temas, como a atual discussão sobre a reforma trabalhista para reduzir a jornada para 40 horas. Mas a escolha tática mudou significativamente entre os governos, e vem crescendo o número de empresas que passaram a defender diretamente a sua agenda perante o setor público.
O próprio papel das entidades setoriais precisou mudar para se adequar aos novos tempos. No governo AMLO as câmaras empresariais eram usadas como uma espécie de “proteção” pelas empresas, para levarem seus pleitos sem se identificar diretamente com eles, porque havia um medo generalizado de a empresa ser mencionada negativamente na “mañanera”. “Quando isso acontecia, gerava uma crise midiática instantânea”, lembra Villegas. Sob Sheinbaum, a lógica das relações público e privada vem mudando da “persecução” para a “integração”. “Hoje, diria que as câmaras empresariais são vistas como uma parte estratégica no diálogo”, reforça o diretor da Burson, o que ajuda a explicar um período de grandes transformações na atividade de RIG. Se entre 2018 e 2024 todos os profissionais da área tiveram que se adaptar ao modelo restritivo de AMLO, desde o ano passado eles estão tendo que mudar a chave e se reconfigurar para praticar a defesa de interesses com um modelo mais baseado em estudos, dados e evidências.
Nesse sentido, é um processo evolutivo similar ao que a área viveu ao longo da última década aqui no Brasil. Mas voltaremos a falar sobre esse assunto ainda nesta reportagem, porque antes…
No meio do caminho tinha um Trump, tinha um Trump no meio do caminho
Fosse apenas lidar com os aspectos internos do momento mexicano, já seria uma montanha de trabalho para os profissionais de RIG, mas eis que emerge Trump dirigindo sua retórica agressiva contra o México.
A relação com os Estados Unidos é a atividade econômica mais importante do México, o que historicamente faz das Relações Exteriores a sua principal pasta ministerial para os negócios no país, superando em importância até a da Fazenda. Dessa forma, pode-se dizer que a gestão do T-MEC (como os mexicanos nomeiam o acordo de livre comércio entre o país, o Canadá e os Estados Unidos) é, senão a principal função das áreas de RIG hoje, uma das suas três prioridades. “Por isso a decisão de Sheinbaum de abrir uma “janela” no Ministério de Relações Exteriores para o diálogo com as empresas é estratégica para os profissionais de RIG”, diz Villegas.
O tratado internacional com os outros países da América do Norte é tão importante para o México que ele acaba, na prática, tendo primazia sobre a própria legislação doméstica em certos aspectos. Sofia Fuentes, diretora-assistente do escritório da Prospectiva na Cidade do México, aponta que certas reformas domésticas, como na área de telecomunicações, “não avançaram, justamente porque violariam certos artigos do tratado de livre comércio”. Mas, segundo a especialista, o setor de telecomunicações e tecnologia está entre os que têm pautas de reformas importantes na agenda, além de “pendências regulatórias” em cibersegurança e inteligência artificial a serem equacionadas.
Como quase tudo o que envolve os Estados Unidos nesta era “trumpiana”, toda a confusão global armada pelo atual ocupante da Casa Branca, trouxe (e ainda traz) muitas contradições. E, ao fim e ao cabo, pode caber ao México, tão atacado, exercer um papel importante na guerra que Washington tenta travar com Pequim.
A iminente revisão do T-MEC e a ameaça de tarifas são, paradoxalmente, as principais ferramentas de Sheinbaum para engajar o setor privado. Uma das maiores oportunidades econômicas para o México: o nearshoring. Já citado anteriormente na reportagem, trata-se de um processo que, neste caso, busca trazer a produção dos Estados Unidos realizada na China e em outros países da Ásia para dentro, ou pelo menos para mais próximo do seu território, o que coloca o México como “o parceiro” estratégico de Washington, o que na prática o país já é, tamanha a interdependência que existe entre os países em diversas cadeias produtivas.
A atual presidente capitalizou sobre as tarifas e o nearshoring ao criar um Conselho composto pelos principais agrupamentos empresariais do país, como a CCE e Coparmex, para “conversar com os empresários” e coordenar a resposta do país. “O setor empresarial e os profissionais de RIG trabalharam com sucesso, em equipe, tanto no setor privado quanto em parceria com o governo, para fortalecer a posição do México nas negociações do T-MEC”, comemora Fernando Ponce Ulvert, gerente sênior de Relações Institucionais da Canadian Pacific Kansas City (CPKC), companhia ferroviária que conecta os três países. Ele também destaca o trabalho dos profissionais mexicanos para alinhar interesses com os setores empresariais organizados dos Estados Unidos e do Canadá na construção de alianças estratégicas, para estabelecer uma atuação regional em prol do fortalecimento de toda a região da América do Norte.
O governo precisa dos dados técnicos das empresas para negociar com os EUA e otimizar o nearshoring. Em troca, as empresas ganham um assento na mesa. “A ameaça e a oportunidade externas justificam a criação dos novos canais de diálogo”, acredita Villegas.
A volatilidade dessa relação EUA-México é o principal risco externo. O uso das tarifas e as constantes ameaças de impor novas ou subir as existentes, estabeleceram um grau de incerteza que supera o visto nos tempos da pandemia de COVID-19. O trabalho dos consultores de RIG, nesse sentido, passou a ser muito o de monitorar e dar condições de entender quais as possíveis implicações e, também, as oportunidades que advém delas. É preciso reconhecer que, apesar da retórica, acredita-se que o México aprendeu a “lidar com Trump” de forma “muito pragmática”, uma relação de coexistência estabelecida justamente no primeiro mandato do americano por AMLO. Aliás, recorrentemente a presidente mexicana é apontada como a que melhor conseguiu lidar com os arroubos vindos da Casa Branca.
Perfil de um Setor Maduro
O mercado de calbideo no México é tido como muito consolidado desde a década de 1990, tendo crescido e se profissionalizado em paralelo à negociação do NAFTA (antecessor do T-MEC). Para Sofia, trata-se de uma carreira profissional que é dinâmica e competitiva, com disponibilidade de profissionais qualificados. A própria Prospectiva relatou não ter dificuldades em encontrar talentos para compor seu time na capital do país. “Muitos desses profissionais têm experiência internacional. Mas é um mercado caro”, diz Ricardo, para quem o México oferece salários mais altos, mas também um custo de vida mais elevado que o do Brasil.
Com as mudanças na dinâmica de poder e na geopolítica, os profissionais de RIG do México estão realmente preparados para liderar uma nova era da defesa de interesses no país? Para Katia Nuñez, líder de Relações Governamentais para América Latina da empresa de tecnologia Kyndryl, alguns estão, mas como ecossistema, ainda existe um vácuo a se preencher. “Por vezes, focamo-nos demasiado nas táticas e pouco na estratégia; estamos muito atentos ao local, mas com pouca compreensão do panorama global. E isso não basta neste novo jogo. O futuro exige que ultrapassemos a zona de conforto da gestão de crises e nos tornemos geradores de soluções sustentáveis com impacto real”, afirma.
Mais crítica, Marilyn Marquez Santillan, diretora de Assuntos Públicos da Ágora, consultoria latino-americana de RIG, acredita que a especialização em Assuntos Públicos no México ainda está em desenvolvimento e ainda não não permeou este estágio inicial da profissionalização do RIG, para a figura do diplomata corporativo, no contexto atual. “A diplomacia corporativa pode contribuir para a análise de riscos futuros sob diferentes perspectivas e para a antecipação, por meio de estratégias abrangentes, de ações para mitigar impactos e criar alianças que beneficiem as empresas que representamos”, pontua a dirigente. Para Suelma, o desenvolvimento da área de RIG acontece no México, mas está em um estágio anterior ao visto no Brasil hoje.
A profissionalização do setor ainda é, em grande parte, informal. “Não existe uma formação, uma carreira de Assuntos Públicos. Os profissionais são formados em ciência política, relações internacionais, ciências da comunicação. A especialização na área de RIG acontece mesmo em mestrados de práticas correlatas, como direito parlamentar, ou em cursos curtos e específicos sobre cabildeo. “Mas estes são poucos”, lamenta Villegas.
Forte presença na História, mas não na área de RIG
A presença das mulheres em posições de liderança na área de RIG nos países da América Latina (excluindo o Brasil) é baixa: neste ano, de 29,3% (como o leitor já deve ter lido na reportagem anterior). Considerando apenas os respondentes do México, a presença é ainda menor, de 28,3%. Este é um forte contraste com a política formal mexicana, onde uma lei de paridade de gênero e um gabinete federal com metade dos seus ocupantes sendo mulheres definem o cenário. Esta lacuna representa uma vulnerabilidade para empresas que mantêm a abordagem antiga nas suas tratativas com o Estado mexicano e uma oportunidade clara para aquelas que alinharem suas equipes de RIG com mais mulheres e mais especialistas técnicos, ao perfil do novo governo.
Ao que tudo indica, a presença da presidente Sheinbaum está impulsionando uma mudança no setor. Tanto que Villegas lembra que uma Associação de Mulheres em Assuntos Públicos foi criada recentemente para representar e dar voz a todas as mulheres que atuam na área.
Muito envolvida com a pauta das mulheres na área de RIG no Brasil, Suelma Franco não acredita que o México seja um país mais “machista” do que o Brasil. “Eu acho que é tanto quanto o Brasil, tem os mesmos desafios”, diz a executiva brasileira. Mas ela reconhece que o México colocou as mulheres, historicamente, em posições de memória e heroísmo, algo que não se vê no processo da construção histórica tupiniquim. “Para você ter uma ideia, na história da independência do México existem duas, três figuras femininas muito marcadas. Uma delas é a Joséfa Ortiz Dominguez, conspiradora da Coroa espanhola e apoiadora da guerra de independência, que é celebrada no país inteiro. As mulheres estão super presentes na construção da identidade nacional”, diz Suelma. Não é o que acontece no Brasil, onde muitas mulheres tiveram papéis importantes em vários momentos históricos chave para a construção da nossa identidade, mas que não emergiram como figuras de referência. “A única figura feminina de referência que nós temos na história brasileira é a Princesa Isabel, que é tratada como uma ‘coitada’ que não sabia o que estava fazendo e assinou a abolição só porque o pai estava de férias”, lamenta Suelma.
Mas também o México vive os desafios de ter a sua primeira presidente. E ainda assim, carregada com uma carga machista, muito parecida com a narrativa utilizada contra a presidente brasileira Dilma Rousseff, a de que só teria sido eleita pelo apoio do seu padrinho político, não por méritos próprios. “[Sobre a questão das mulheres] eu diria que são construções históricas diferentes, elementos identitários diferentes, mas a verdade é que eu colocaria essa dificuldade para a presença das mulheres na área de RIG no pacote de semelhanças entre os países, não no de diferenças”, conclui Suelma.
O Custo da segurança da perspectiva da área de RIG
Não é difícil encontrar expatriados brasileiros que dizem se sentir mais seguros na cidade do México do que nas grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo ou Rio de Janeiro. Mas essa é uma percepção que tem muito a ver com a geografia. Em geral, executivos estrangeiros vivem em áreas nobres da capital, como o famoso bairro de Polanco. Mas em linhas gerais, pode-se classificar a cidade do México como uma bolha de segurança em meio a um caldeirão. O nível de mortes violentas no México em 2023 foi de 23,3 mortes por cada 100 mil habitantes (no Brasil, no mesmo ano, foram 22,8 mortes por 100 mil habitantes).
Para os profissionais que exercem a atividade de Relações Governamentais no México, como Sofia Fuentes, da Prospectiva, a questão da segurança física não é tratada como um risco político direto, capaz de afetar inclusive os operadores de RIG, embora a violência na política local seja superior ao que se costuma ver no Brasil. O verdadeiro impacto, como define Ricardo Mendes, também da Prospectiva, é operacional e financeiro. “É algo que aumenta os custos de operação no país, especialmente em logística”, diz. Villegas, da Burson, corrobora, afirmando que o “Estado de Direito (no caso, em relação a capacidade do Estado não permitir que o crime organizado suplante a sua autoridade) é a principal preocupação do setor empresarial, em especial para empresas que possuem plantas em alguns estados reconhecidamente mais problemáticos”.
O risco operacional, como o roubo de cargas, tornou a segurança uma pauta prioritária dentro das estratégias de advocacy. Villegas relatou uma reunião recente de uma câmara empresarial com um dos principais tomadores de decisão na Guarda Nacional. “Parte da estratégia de RIG agora, é expandir os esforços de segurança para suas plantas e encontrar caminhos para cuidar do seu patrimônio, em aliança direta com as forças de segurança do governo”, conta o diretor da Burson.
A violência representa um dos maiores, senão o maior, entrave na estratégia mexicana de aproveitar a oportunidade do nearshoring, que exige a construção de plantas e de logística “fora da “bolha” segura da cidade do México, muitas vezes perto da fronteira com os EUA. “Essa região, próxima à fronteira, é exatamente o “caldeirão”, lembra Suelma Franco, da PepsiCo, onde a violência dos cartéis é mais intensa. Por isso, a estratégia de segurança do governo não é um tema político ou social isolado, mas uma condição importantíssima para o sucesso de todo o projeto econômico do governo Sheinbaum.