Uma pesquisa aponta que o nível de retaliação com o qual convivem os profissionais de compliance, em especial na América do Norte, são preocupantes
Proteger denunciantes contra retaliações costuma estar entre as prioridades para executivos de compliance em todo o mundo. Mas, dados de uma pesquisa realizada pela empresa de soluções tecnológicas de risco e compliance, Case IQ e a empresa de informação e conteúdo especializado, Radical Compliance, que ouviu 328 profissionais de compliance ao redor do mundo (cerca de 70% deles baseados na América do Norte), apontam que esses mesmos profissionais sofrem retaliações com uma frequência alarmante e de forma sistemática.
De acordo com a pesquisa, além dos 70% dos respondentes que afirmam categoricamente ter sofrido represálias por levantar preocupações éticas, e dois terços declararam ter passado por essas situações múltiplas vezes. Outros 9% acreditam ter sido vítimas de represálias, embora não tenham certeza absoluta para sustentar tal afirmação.
O estudo mostra que a retaliação contra os oficiais de compliance costuma ser mais velada e social, o que a torna mais difícil de ser documentada e também mais fácil de ser ignorada pelas corporações. As punições “sociais”, como a exclusão de reuniões para as quais o profissional é habitualmente convidado e a difamação por colegas lideram o ranking de abusos reportados. Mas a negação de bônus ou aumento salarial, avaliações de desempenho rebaixadas ou mesmo demissão sumária foram retaliações experimentadas por cerca de 30% dos respondentes, cada.
As preocupações levantadas pelos compliance officers e que acabam levando a retaliação, de acordo com a poesqwuisa, envolvem a ausência ou ineficiência de controles internos (29%), conduta pessoal inadequada (15%), conflitos de interesse (12%) e discriminação (9%).
De acordo com os pesquisadores, o que mais assusta na pesquisa é descobrir de onde partem os ataques. A maioria dos profissionais que responderam a pesquisa (58%) disseram relatar suas preocupações de compliance ao seu gestor imediato. Só que 23,6% dos profissionais de compliance e riscos afirmaram que a pessoa responsável pela retaliação foi exatamente esse gestor imediato. Ou seja, quase um quarto dos respondentes diz estar sofrendo assédio de outros profissionais de compliance, além do alto escalão de outras áreas de negócios.
O impacto profissional dessa cultura de retaliação é perigoso para a própria estrutura de governança e controles das companhias. 36% dos compliance officers admitem ter medo de escalar problemas sérios para a alta gestão das companhias nas quais trabalham atualmente. Além disso, quase metade (48%) confessou que o medo de sofrer retaliações já os impediu de relatar uma preocupação ética em algum momento de suas carreiras.
A inação das estruturas corporativas em agir diante das denúncias feitas também faz com que muitos profissionais, com o tempo, deixem de achar que vale a pena correr o risco de fazer uma denúncia. Quase um terço (31%) dos compliance officers não acredita que seu atual empregador leve a retaliação contra sua função a sério.
Quando as vítimas criam coragem e denunciam a retaliação que sofreram, na vasta maioria das vezes, nada acontece. 53,6% dos respondentes relataram que a empresa sequer investigou o caso ou tomou qualquer ação corretiva. Apenas 4% afirmaram que os responsáveis pela retaliação foram devidamente punidos. Fora dos muros da empresa, a busca por justiça é rara, apenas 13% daqueles que foram demitidos como forma de retaliação decidiram processar a empresa, embora a maioria destes profissionais alegam ter conseguido acordos financeiros satisfatórios.
Para os responsáveis pela pesquisa, para endereçar a questão é necessário que os conselhos de administração conversem sobre a blindagem desses profissionais. Ideias como mandatos fixos para CCOs (removíveis apenas por justa causa) ou comunicação direta obrigatória e desimpedida com os conselhos devem estar em pauta nas discussões.

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