A inteligência artificial segue o seu fluxo impactando tudo o que encontra pelo caminho
Os desafios impostos pelo avanço, ainda avassalador, da inteligência artificial (IA) e suas potenciais implicações para o futuro em muitas áreas – do trabalho à segurança nacional -, torna esse tema uma agenda que engloba, igualmente, grandes riscos e oportunidades para lideranças políticas, econômicas, militares, da sociedade civil e, claro, do mudo corporativo.
A inteligência artificial segue como um assunto fundamental em muitas frentes para os profissionais de RIG no Brasil no mundo. Tanto que na pesquisa deste ano a inteligência artificial foi o segundo tema apontado entre os que geram muito interesse de serem acompanhados pelos líderes de RIG nas empresas, quando questionados na pesquisa sobre o grau de interesse deles em acompanhar as discussões/negociações de natureza política e regulatória sobre uma série de temas listados. 76,2% dos respondentes com atuação em empresas afirmaram ter muito interesse em acompanhar a agenda da IA, superando o tema da Sustentabilidade, que com 10 pontos percentuais a menos caiu para 71,8%, mesmo com o Brasil sediando uma conferência como a COP-30, que já terá ocorrido quando você estiver lendo esta edição do Anuário ORIGEM LATAM.
Objetivamente, a adoção da IA no trabalho pelas áreas de RIG segue ganhando espaço. Se no ano passado alcançou 50,5% dos respondentes, neste ano esse percentual saltou para 62%. Entre os 38% que disseram ainda não se valer da tecnologia no seu dia a dia, 42,5% dos profissionais de RIG nas empresas dizem que pretendem adotá-la até o final de 2025. A título de curiosidade estatística, caso essa previsão venha a se concretizar, o percentual de líderes de RIG corporativo dizendo usar a IA saltaria para 67,6%.
Nas consultorias, mais do que avanço, podemos falar em domínio. Entre os respondentes desse grupo, 87,4% dizem já usar para as atividades diárias de RIG. E entre esse público, a IA é o tema que a liderança de RIG tem maior interesse em acompanhar, sendo de muito interesse para 83,9%, à frente até da Reforma Tributária.
Entre os profissionais que dizem já usar as ferramentas de IA na área, 44,8% afirmaram que na empresa em que atua, ao menos uma das ferramentas principais baseadas em IA é proprietária da companhia. No ano passado, esse mesmo percentual foi de 32%.
O avanço no número de empresas criando suas próprias aplicações baseadas em IA é esperado e ele deve continuar subindo nos próximos anos, em função do estabelecimento de mecanismos mais robustos de governança da tecnologia nas companhias. Uma das grandes preocupações, e que evitam um “liberou geral” dos chatGPTs, Geminis e afins nos computadores corporativos, diz respeito ao receio de que informações sensíveis e estratégicas da companhia, caso de muitos temas de RIG inclusive, possam vazar e acabarem expostas involuntariamente via essas grandes ferramentas de uso público e disseminadas globalmente.
Esse tipo de receio, em geral, só costuma ser mitigado com o desenvolvimento de aplicações em ambientes privativos, até fora de uma nuvem em casos mais extremos, mantendo todo o sistema fechado nas redes da empresa.
O avanço na governança no uso da IA dentro das empresas tende a tornar a sua adoção mais ampla e efetiva pelos funcionários. Por exemplo, nas multinacionais (onde atuam 59,6% da base de pesquisados e que, na média, costumam estar mais avançadas nessa agenda), 59,4% dos líderes de RIG respondentes disseram fazer uso de alguma ferramenta de IA proprietária para trabalhar, mais de 10 pontos percentuais acima da média da pesquisa. E mesmo o uso da tecnologia para os processos mais simples, como a própria produção inicial de documentos ou projetos de RIG, está em percentual mais alto entre as multinacionais, com 85,7%.
Esse avanço da governança de IA nas empresas, em especial nas maiores, pode vir a tocar em algum momento nas consultorias de RIG com as quais a empresa trabalha por uma questão de segurança. Isso porque, no caso das prestadoras de serviço, apenas 25,8% contam com algum aplicativo proprietário. Os três quartos das consultoras que ainda não evoluíram na construção de soluções internas, em geral consultorias pequenas e boutiques altamente especializadas, podem vir a ter que desenvolver meios para mitigar esses riscos, pelos motivos já expostos acima. Em última instância, a depender de como o tema evoluir, inclusive do ponto de vista legal e regulatório, pode levar a uma formatação comum em alguns mercados, nos quais grandes empresas só contratam grandes consultorias por uma questão de estrutura e risco.
Para além da questão-chave da segurança de informação, IAs proprietárias permitem às empresas cuidar do aprendizado da máquina, estabelecendo maior controle sobre as fontes de dados e informação que irão servi-la, algo muito importante não só para diminuir o risco de “alucinações”, mas principalmente para melhorar a produtividade e a eficácia, já oferecendo aos funcionários uma ferramenta que sabe “falar e escrever” na linguagem da empresa e do setor no qual ela opera.
Entre os respondentes com atuação nas empresas e que disseram fazer uso da IA no escritório, nada menos do que 79,7% dos respondentes indicaram tê-la usado na produção textual, como a preparação inicial de documentos, e também na elaboração de projetos relacionados à área de RIG. Foi um bom salto na comparação com 2024, quando 63,3% dos respondentes sinalizaram o mesmo. Esse é o único tópico pesquisado no qual o percentual de menções pelas empresas é superior ao indicado pelas consultorias, embora o salto nesse caso tenha sido superior aos 20 pontos percentuais.
Entretanto, a atividade que viu o maior salto no uso da IA do ano passado para cá foi a produção própria de relatórios de análise críticas de agentes públicos e outros stakeholders. Se em 2024 apenas 18,3% haviam indicado executar essas tarefas internamente, neste ano foram 45,3% dos respondentes, colocando esse tópico como a segunda atividade para a qual mais se usa IA pelos profissionais de RIG.
A elaboração automática de resumos de discursos parlamentares também viu um grande salto na incorporação da IA para a sua realização: 33,6%, bem acima dos 20% que responderam o mesmo ano passado. Este é um bom exemplo de uma atividade que cresce em viabilidade de ser realizada internamente por meio do apoio de ferramentas baseadas em IA.
Na outra ponta, o uso de aplicações de IA para o monitoramento da atividade parlamentar teve uma queda no seu uso de quase 20 pontos porcentuais, de 42,5% em 2024 para 23,4%. Chama a atenção também a queda para menos da metade dos respondentes de um ano para o outro que apontam na IA para realizar projeções de votação de aprovação ou rejeição de projetos legais. Não que o número fosse muito alto, só 15% apontaram esse tópico no último ano, mas agora este percentual foi de 7%.
É de se esperar que, na medida em que as tecnologias suportadas pela IA vão evoluindo e sendo mais testadas na prática, a sua adoção e respectivo uso vão sendo depurados pelo mercado. No caso da atuação preditiva sobre os votos dos parlamentares, existe certo consenso na atualidade entre especialistas de que a IA é boa para fazer previsões baseadas em dados objetivos. Mesmo que a ferramenta possa acessar a todo o histórico de votação de cada parlamentar, das suas posições políticas e ideológicas, afinidades e relações, a máquina ainda não tem a sensibilidade necessária para considerar as mudanças repentinas nos ventos, humores e condições políticas; e porque não dizer, dos próprios interesses daquele parlamentar naquele momento. E a IA ainda tem menos chance de saber como avaliar o impacto da ação de outros stakeholders sobre o servidor. Por isso, é bem provável que a experiência, feeling e presença constante nos ambientes de poder e decisão façam dos profissionais de RIG de carne e osso mais assertivos (ao menos por enquanto) do que as máquinas, por mais “inteligentes”, que elas sejam.
Em relação aos impactos mais amplos gerados pela transformação digital dos negócios e da sociedade, aquelas que chamam a atenção de fato do profissional de RIG, nenhuma grande mudança se observa entre 2023 e 2025. A busca pela melhor forma de empregar as novas tecnologias na área de RIG segue sendo o item mais citado pelos respondentes nas empresas, caso de 59,4%.
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