As áreas de Compliance se preocuparam em cuidar da governança do uso de IA pela empresa toda. Mas ela mesmo ainda tem restrições à sua aplicação de forma mais abrangente
Nos últimos anos, as áreas de Compliance de muitas empresas assumiram ou vêm assumindo um papel central para um aspecto chave para o futuro dos negócios em diferentes setores: estabelecer as regras de governança para o uso seguro da Inteligência Artificial (IA).
Publicado em junho deste ano pela consultoria especializada Ethisphere e pela firma de tecnologia Ethena, a pesquisa The State of AI Adoption in Ethics & Compliance, aponta que 63% dos líderes das áreas de Ética & Compliance que responderam ao questionário, já desempenham um papel formal na governança de IA em suas empresas — avaliando ferramentas, desenhando limites éticos e orientando as áreas de negócio.
Mas enquanto estabelecem os meios adequados para uso da IA para a empresa inteira, os próprios compliance officers ainda não estão com os dois pés nessa estrada. O estudo, que ouviu líderes de 134 organizações, mostra que enquanto 67% dos respondentes disseram que suas empresas já alcançaram um grau de adoção amplo ou avançado de ferramentas de IA, apenas 22% dos departamentos de Compliance podem dizer o mesmo sobre suas próprias rotinas, com 50% dos respondentes apontando que a área faz uso da tecnologia apenas em situações em que o seu uso já é aprovado previamente, percentual este que é muito menor, de 26,9%, quando se pensa na operação das empresas como um todo.
O principal motivador para essa distância em relação à adoção da IA para as tarefas de compliance, de acordo com os próprios profissionais da área, tem a ver mais com a confiança que eles depositam no uso da tecnologia do que qualquer outra restrição, inclusive de ordem financeira.
Em que pese o fato de que 84% das equipes de compliance não possuem uma linha de orçamento dedicada exclusivamente à IA, as restrições de orçamento aparecem apenas em sexto lugar na lista de barreiras para adoção da nova tecnologia, sendo citadas por 24% dos participantes da pesquisa. Os dois riscos principais são os de alucinação e falta de precisão (53%) e as preocupações com confidencialidade, privilégio e exposição de dados (48%).
Para os pesquisadores, na medida em que o profissional de compliance passa o dia mapeando riscos para proteger a empresa, na hora de ele mesmo usar a tecnologia essa cautela é aplicada com rigor máximo. Além disso, como aponta o estudo, como a área de Compliance recebeu um mandato urgente de estabelecer a governança da IA para toda a empresa, ela foi obrigada a olhar para o quadro mais amplo antes de pensar em aplicações próprias para a área.
Por fim, diz o relatório, se o Compliance foi capaz de criar diretrizes seguras para que outras áreas operassem a IA mitigando os riscos de alucinação e vazamento de dados, chegou a hora de aplicar essas mesmas diretrizes em causa própria. “Nos primeiros anos da IA, os líderes de compliance tendiam a focar nos riscos associados ao seu uso. Agora, observo uma mudança de perspectiva: as equipes de compliance estão percebendo que também existe risco em não utilizar a IA”, acredita Roxanne Bras Petraeus, CEO da Ethena. Sem olhar mais a sério para essa adoção, a área responsável por guiar o caminho ético das empresas corre o risco de ficar presa no passado.
Para a executiva da empresa de tecnologia, o risco se dá pela capacidade limitada das equipes da área, em geral enxutas, que acabam sendo dispersas com atividades de baixo impacto, como a análise manual e repetitiva de conflitos de interesse. “Uma abordagem mais eficiente consiste em utilizar a IA para manter o compliance integrado ao processo, liberando assim o tempo das equipes para a realização de atividades de maior impacto”, segue Roxanne, para quem a IA frequentemente supera os humanos na identificação de riscos e tendências.
A evolução da inteligência artificial trouxe novos desafios para a proteção de dados e para a governança digital nas organizações. Estar preparado para gerenciar esses riscos tornou-se essencial.
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